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Com o jogo acontecendo todo e qualquer palpite ou aposta já leva vantagem sobre “projeções” ou “pitacos” feitos antes da bola rolar.
Por isso vou avisando aos leitores que não quero brigar com o pessoal da Contabilidade ou da Manutenção, mas o que vou trazer aqui é uma crítica ao fato de que a comunicação entre áreas técnicas e financeiras sempre foi um desafio nas organizações. Desafio pra não chamar de entrave mesmo. E pode ser bem diferente.
De um lado temos a Contabilidade que trata números, normas e relatórios. Friamente, como deve ser.
Do outro, a Manutenção lida com ruídos, temperatura, vibração, óleo e prazos de parada, variações climáticas e um cliente que costuma se mexer. E gente, própria e de terceiros. Lida com a técnica e emoções, acredite.
Mas ambas entidades (funções?) têm algo essencial em comum: lidam com ativos, riscos, valores e resultados.
Neste artigo, tento mostrar como a Manutenção pode ser entendida — e valorizada — a partir de uma abordagem contábil. Ao passar pelos seus principais elementos (ativos, passivos, contas e reservas), considerando também os aspectos intangíveis e imateriais que essa área sustenta e entrega — e que muitas vezes não aparecem nos balanços, mas são absolutamente vitais para a saúde da organização que integra.
1. Ativo Imobilizado: A Base Patrimonial da Manutenção
O ativo imobilizado representa os bens físicos duradouros de uma empresa. No mundo da Manutenção, é o ponto de partida e destino das ações: máquinas, sistemas, edificações, redes elétricas e hidráulicas, sistemas de climatização e muito mais. Sem conhecer no detalhe o que está sob sua responsabilidade a Manutenção é mais um parque de diversões no estilo tenebroso, de intenso terror. Ou seja, não haverá boa manutenção sem um inventário completo e detalhado dos ativos, o patrimonio material da empresa.
Mas há algo ainda tão ou mais valioso, e invisível: o conhecimento técnico acumulado ao longo do tempo. Esse “ativo imaterial” é construído pela experiência dos profissionais, pelo aprendizado dos erros e acertos, pelos históricos de falha, pelos ajustes finos feitos fora do manual. Ele não aparece no balanço patrimonial, mas sua ausência gera custos altíssimos.
Cuidar dos ativos físicos é também cuidar do conhecimento que os mantém em operação.
2. Passivo Técnico: Riscos e Obrigações Latentes
Assim como a Contabilidade reconhece dívidas e obrigações futuras, a Manutenção de qualidade tem mapeado seu passivo técnico: o backlog de ordens de serviço, as analises de falhas pendentes, os planos de ação deixados de lado no meio do caminho, as intervenções atrasadas.
Esse passivo cresce silenciosamente e compromete o desempenho dos ativos — e da organização. Mais do que um problema operacional, ele é reflexo direto de políticas de pessoal: capacitação, atualização tecnológica, valorização e retenção de talentos. Sem uma equipe técnica bem dimensionada, qualificada e motivada, o passivo técnico se converte rapidamente em perdas operacionais e falhas em cadeia.
Aqui também mora uma entrega imaterial da manutenção: o bom clima organizacional que permite a operação fluir com segurança, confiança e profissionalismo.
3. Ativo Circulante Técnico: Recursos de Curto Prazo
Se pelo lado da Contabilidade o ativo circulante representa bens e direitos de rápida conversão, na Manutenção ele está nos recursos operacionais disponíveis no dia a dia: ferramentas calibradas, estoque de peças críticas, equipe com horas disponíveis e dados atualizados. E, obviamente, fornecedores capazes de responder ao dia a dia a dia, mas principalmente quando o bicho estiver pegando.
Mas a gestão eficiente vai além: inclui a gestão de contratos com fornecedores e prestadores de serviços, que garantem respostas rápidas e qualidade de atendimento.
Esses fatores demandam agilidade, previsibilidade e decisões embasadas — elementos que, embora nem sempre tangíveis, são fundamentais para a continuidade da operação.
4. Reservas Técnicas: Planejamento Estratégico de Riscos
Para a Contabilidade, reservas existem para suportar situações extraordinárias. Na Manutenção, elas assumem múltiplas formas:
- Peças sobressalentes críticas;
- Planos de contingência;
- Janelas de parada estratégica;
- Recursos financeiros provisionados.
E, especialmente, a capacidade de adaptação a mudanças legislativas, técnicas e de mercado. Normas internacionais, exigências ambientais (ESG), regulamentações setoriais e novas tecnologias exigem que a área de manutenção pense estrategicamente e atue com visão regulatória e sustentável.
Sim, os Planos de Contingencia contemplam a gestão de riscos climáticos, cada vez mais relevantes, principalmente em ativos prediais ou expostos ao ambiente externo. Se a sua Manutenção ainda não levantou os olhos e deu uma mirada no que acontece lá fora, acho que teremos problemas, graves, breve breve.
A Manutenção não só cuida do hoje — ela protege o amanhã.
5. Contas a Pagar: Intervenções Físicas e Financeiras Futuras
As contas a pagar da Manutenção são previsíveis: troca de componentes no fim de sua vida útil, retrofits programados, atualizações de sistemas, introdução de técnicas preditivias. Também tem substituição de pessoal se aposentando, gente se mudando para outros setores e mesmo as promoções de cargo, sempre bem-vindas.
Mas há novos componentes nesse cenário: o uso crescente de Inteligência Artificial, Machine Learning e IoT. Essas tecnologias permitem antecipar falhas, otimizar OPEX e CAPEX, dar mais produtividade aopessoal do PCM e tomar decisões com base em dados reais.
É importante entender que “ativo velho” não significa “obsoleto”. Obsolescência se define pela falta de integração com novas tecnologias e critérios de desempenho. Equipamentos bem mantidos e tecnicamente atualizados podem ser mais valiosos que investimentos prematuros.
6. Contas a Receber: Os Benefícios Gerados pela Manutenção
Toda produção, operação ou serviço parte do pressuposto de ativos funcionando de forma confiável. As metas de produção, eficiência energética, segurança e compliance dependem diretamente da atuação da Manutenção — mesmo que isso não esteja registrado no centro de resultados.
Esses ganhos — menor tempo de parada, mais segurança, maior vida útil — são valores a receber que não entram no fluxo de caixa, mas reduzem custos, evitam perdas e fortalecem a performance da empresa.
Ninguém gosta de ir ao shopping cujas escadas rolantes não funcionam e não há sorvete a entregar se a máquina de mistura está descalibrada.
O valor da manutenção está, muitas vezes, no que não acontece: falhas, acidentes, atrasos, multas. Seu impacto é silencioso, porém estratégico. E na Análise Contábil, nada disso vai ser sequer mencionada.
7. Dificuldades Específicas: Barreiras para a Visão Integrada
Assim como ninguém achou ainda um remédio universal para todos os males da humanidade, nem uma fórmula para a felicidade, não existe um modelo único de gestão de manutenção aplicável a todas as empresas. Cada organização deve respeitar sua estrutura, cultura, grau de risco e complexidade.
Cada um, com sua Contabilidade e sua Manutenção devem saber onde lhes aperta o calo.
Empresas com hierarquias achatadas ou extensas, ativos de grande porte ou com alta periculosidade, demandas regulatórias específicas ou múltiplos sites operacionais exigem abordagens próprias.
Por isso, comparar diretamente indicadores iguais para empresas diferentes pode ser ineficaz e mesmo improducente. O desafio está em construir modelos aderentes ao contexto real, valorizando a integração com as áreas de engenharia, produção e — especialmente — finanças.
8. A Fotografia do Passado e o Cenário à Frente
Os dados da Manutenção nos contam a história recente da empresa: onde ocorreram falhas, quais ativos demandam mais atenção, que tipo de intervenção é mais comum.
Já os históricos deduram o que foi bem e o que foi mal. Quem foi bom e quem foi mau.
Mas esse retrato só tem valor quando olhamos para frente. O passado até ensina, mas não garante o que vai rolar daqui em diante. Tendencia, nenhuma garantia.
A gestão de manutenção precisa trabalhar com visão de futuro, entendendo as tendências, ciclos de renovação tecnológica, transformações operacionais e mudanças nas “regras do jogo”.
Assim como num campeonato, as equipes se renovam, os concorrentes evoluem e o ambiente muda. A Manutenção precisa estar sempre se antecipando, ajustando estratégias e preparando-se para novos cenários. Estudando o gramado ruim ou o tapete artificial, a altitude e o tamanho dos zagueiros adversários. Tudo conta. A Contabilidade também sabe disso.
Conclusão: Alinhamento Estratégico pela Mesma Linguagem
Quando Manutenção e Contabilidade falam a mesma língua, todos ganham: a operação, a gestão, a governança e os resultados. O desafio é traduzir ações técnicas em impactos financeiros, e impactos financeiros em argumentos para decisões técnicas bem fundamentadas.
Mais do que cuidar de máquinas, a manutenção preserva patrimônio, reduz riscos, gera valor e sustenta a perenidade dos negócios. E faz tudo isso lidando com elementos imateriais: conhecimento, clima organizacional, cultura de segurança e visão de longo prazo.
Ao usar a linguagem contábil para estruturar seus relatórios e sua comunicação, a manutenção se posiciona como agente estratégico de governança técnica e financeira — algo que toda organização precisa.
Adendo à Conclusão
Muita gente acredita que o Balanço Patrimonial é suficiente para avaliar a saúde financeira e econômica de uma empresa. E, de fato, ele oferece uma visão essencial: mostra o que a organização possui, o que deve, e como se estrutura financeiramente.
Mas há um outro balanço, menos formal, porém tão estratégico quanto: o Balanço da Manutenção. Ele revela como a empresa trata seus ativos críticos, como gerencia os riscos operacionais, como responde às ameaças técnicas e como se prepara para a agenda futura — seja ela de crescimento, sustentabilidade ou transformação digital.
Esses dois balanços, quando confrontados e analisados em conjunto, oferecem uma visão rica e profunda do negócio. São especialmente valiosos em contextos de assessment técnico, auditorias de operação, ou processos de due diligence.
Quem olha apenas o financeiro pode ver lucro.
Mas quem analisa também a manutenção, enxerga sustentabilidade e perenidade do resultado.
A pergunta final é inevitável: Vale a pena investir nesta empresa?
Ninguém compra ou investe numa empresa pelo que ela fez (ok, o nome, a reputação, seu acervo de produtos e serviços valem muito). Interessa sim o que ela é capaz de entregar daqui em diante,
Olhando o Balanço Patrimonial e o Balanço da Manutenção da sua empresa, voce acha que vale a pena investir nela?
Se qusier aprofundar o assunto, estou a disposição.
Grarnde abraço
Paulo Walter
Consultor Empresarial
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