Por Fernando Palamone
Toda vez que se fala em novos data centers no Brasil, a reação é quase automática: “e o consumo de energia?”. A pergunta é legítima, mas incompleta.
No mudo todo, data centers respondem por cerca de 1,5% do consumo global de eletricidade. É uma fatia relevante, especialmente porque cresce com a inteligência artificial e os serviços em nuvem. Nos Estados Unidos, por exemplo, esse número já ultrapassa 4%, com projeções de crescimento acelerado nos próximos anos. Ou seja: ignorar o impacto não é uma opção.
Mas olhar apenas para o consumo absoluto também distorce o debate. Os data centers são essenciais para a economia digital. Eles sustentam praticamente tudo o que usamos no dia a dia, como pagamentos eletrônicos, bancos, internet, telecomunicações, logística, serviços públicos, saúde e operações industriais. Sem data centers, a economia digital não funciona.
No Brasil, essa infraestrutura ainda é incipiente e defasada. Com base em 2025, o país conta com cerca de 800 MW de capacidade instalada em data centers — um número insuficiente para atender à demanda nacional. Para comparação, Alemanha, Reino Unido, Japão e França já superam 1.500 MW cada, enquanto os Estados Unidos ultrapassam 35.000 MW, tratando data centers como infraestrutura crítica para o desenvolvimento econômico e a segurança nacional. Na prática, isso significa que os EUA têm hoje cerca de 40 vezes mais capacidade instalada em data centers do que o Brasil, mesmo tendo uma população apenas aproximadamente 1,5 vez maior, além de estarem executando planos de expansão acelerada, mais do que dobrando a capacidade até 2035.
Com isso as data centers no Brasil representam apenas cerca de 1% do consumo total de energia elétrica, participação inferior à de vários segmentos industriais tradicionais – e de capacidade insuficiente para suprir as reais necessidade de processamento do país. A discussão mais madura, portanto, não é “ter ou não ter”, e sim como desenvolver e incentivar esta infraestrutura crítica, de forma eficiente e responsável, projetando essas estruturas para que sejam parte da solução.
É essa lógica que orienta os projetos da RT-One em Maringá e Uberlândia. Desde a concepção, a premissa foi clara: eficiência extrema e baixo impacto ambiental como ponto de partida, não como complemento.
Os empreendimentos foram desenhados para operar com PUE inferior a 1,2 — índice que os posiciona entre os mais eficientes do mundo — e WUE igual ou menor que 0,05 litro por kWh. A refrigeração líquida em circuito fechado (direct-to-chip) com dry coolers praticamente elimina o consumo de água no processo de resfriamento, um tema sensível em um país que convive com eventos climáticos extremos. O sistema inclui ainda captação de água de chuva, reuso e estação própria de tratamento de efluentes.
Na energia, o compromisso é com matriz 100% renovável, autoprodução solar e meta de neutralidade de carbono nos escopos 1 e 2, alinhado às diretrizes do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços em parceria com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento.
Mas talvez o ponto mais relevante seja outro: o papel que um data center pode exercer na estabilidade do sistema elétrico. Em um país como o Brasil com alta participação de fontes renováveis variáveis, como solar e eólica, estabilidade é tão importante quanto geração. Data centers estruturados com geração própria e sistemas avançados de baterias, ajudam a dar mais estabilidade ao sistema elétrico, especialmente em momentos de variação na geração de energia, funcionando como cargas controláveis, absorvendo excedentes de energia e ajudando a reduzir oscilações na rede.
Isso muda a narrativa. O data center deixa de ser visto apenas como grande consumidor e passa a ser um ativo estratégico para a resiliência energética.
Há também o impacto econômico. A expectativa é de cerca de 2 mil empregos diretos e indiretos, com estímulo à formação de mão de obra qualificada e fortalecimento dos ecossistemas regionais de inovação.
A transformação digital é inevitável. A questão não é se o Brasil fará parte dela, mas em que condições. E assim os data centers precisam ser vistos como parte da solução e do crescimento do país, e deixando de ser vilificados pela cultura popular, e passando a ser classificados como infraestrutura digital crítica e essencial – planejada com eficiência energética, responsabilidade hídrica e ambiental, integrada ao sistema elétrico, e aliada da transição verde.
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