Por Fábio Aguiar, CGO do Mitra*
Durante anos, o mercado corporativo acreditou que produtividade era uma questão de fornecer mais tecnologia aos funcionários. A lógica parecia inquestionável: quanto mais softwares uma empresa contratasse, mais eficiente ela se tornaria. Os resultados, porém, revelaram uma contradição. Organizações acumularam plataformas para praticamente todas as atividades de negócio, mas continuaram dependentes de profissionais para consolidar dados, preencher sistemas, validar documentos, acompanhar fluxos e transformar informação em ação. O problema deixou de ser acesso à tecnologia e passou a ser capacidade de execução. É justamente nesse ponto que surge uma mudança relevante no mercado empresarial. O software continua existindo, mas deixa de ser apenas uma ferramenta utilizada por pessoas e passa a incorporar agentes capazes de executar etapas inteiras dos processos corporativos.
O crescimento dessa tendência não pode ser tratado como mais um ciclo de inovação tecnológica. Quando o Gartner projeta que 40% das aplicações empresariais terão agentes embarcados até o final de 2026, ante menos de 5% em 2025, o que está sendo sinalizado não é apenas uma nova funcionalidade disponível nos sistemas. O dado revela uma mudança na proposta de valor da indústria de software. Durante décadas, empresas compraram plataformas que prometiam organizar o trabalho. Agora, o mercado começa a exigir plataformas que realizem parte desse trabalho. A diferença parece sutil, mas altera completamente a forma como organizações investem, medem produtividade e estruturam suas operações. O foco deixa de ser quantas pessoas utilizam um sistema e passa a ser quantos processos podem ser concluídos sem intervenção humana contínua.
Essa mudança acontece em um contexto econômico bastante específico. Nos últimos anos, empresas foram pressionadas simultaneamente por aumento dos custos operacionais, escassez de profissionais especializados e necessidade crescente de responder com rapidez às mudanças de mercado. Não é coincidência que o IDC projete investimentos de US$ 3,4 bilhões em software, serviços e infraestrutura relacionados à inteligência artificial no Brasil em 2026, com crescimento superior a 30%. Organizações não ampliam investimentos nessa velocidade apenas para modernizar suas operações. Elas investem porque enxergam uma oportunidade concreta de ampliar capacidade produtiva sem expandir estruturas na mesma proporção. Em outras palavras, agentes digitais estão sendo incorporados não porque representam uma inovação interessante, mas porque oferecem uma resposta econômica para um problema real de escala.
O aspecto mais relevante desse movimento é que ele desloca a discussão do campo da automação para o campo da execução. Durante anos, ferramentas corporativas ajudaram profissionais a trabalhar mais rápido. Agora, o objetivo passa a ser diferente. Em vez de acelerar tarefas, busca-se concluir processos completos. A diferença é significativa. Uma organização pode ter centenas de dashboards sofisticados e ainda assim depender de equipes inteiras para transformar informações em decisões. Quando agentes assumem atividades como análise documental, consolidação financeira, acompanhamento de aprovações ou monitoramento operacional, o ganho não está apenas na velocidade. Está na redução do custo de coordenação que tradicionalmente acompanha o crescimento das empresas. Quanto maior uma organização se torna, mais recursos ela consome para coordenar seu próprio funcionamento. É justamente essa camada de complexidade que começa a ser absorvida pelos agentes.
Os críticos dessa transformação costumam apontar riscos legítimos relacionados a governança, responsabilidade e segurança. Essas preocupações são justificáveis, mas não invalidam a tendência. O próprio Gartner alerta que mais de 40% dos projetos de agentes podem fracassar até 2027 por falhas de implementação, ausência de governança ou expectativas irreais. O dado, porém, não demonstra que a tecnologia seja dispensável. Ele evidencia que empresas ainda estão aprendendo a administrá-la. Nenhuma organização séria permitiria que um novo colaborador operasse sem supervisão, regras ou auditoria. O mesmo princípio se aplica aos agentes. Por isso, frameworks como o AI TRiSM ganham relevância crescente ao estabelecer mecanismos de controle, rastreabilidade e gestão de risco para sistemas autônomos. O desafio não está em decidir se agentes devem participar das operações corporativas, mas em definir sob quais critérios eles serão supervisionados.
Também é precipitado concluir que esse movimento resultará em substituição generalizada de trabalhadores. O que se observa é uma reorganização das atividades dentro das empresas. À medida que tarefas operacionais passam a ser executadas por agentes, cresce a demanda por profissionais responsáveis por supervisionar processos, validar resultados e administrar a interação entre sistemas e áreas de negócio. O próprio Gartner já identifica o surgimento de funções como Agent Steward para lidar com essa realidade. A discussão relevante, portanto, não é sobre a eliminação do trabalho humano, mas sobre a redistribuição das responsabilidades dentro das organizações. Assim como a computação em nuvem redefiniu a infraestrutura corporativa e os smartphones redefiniram a comunicação empresarial, os agentes estão redefinindo a execução. As empresas que compreenderem essa mudança primeiro não terão apenas acesso a uma nova tecnologia. Terão uma nova forma de operar.
*Fábio Aguiar é especialista em inovação e implantação de agentes de IA corporativos, com mais de 20 anos de experiência em tecnologia e negócios. Atualmente, ocupa o cargo de Chief Growth Officer no Mitra, empresa pioneira em plataformas que criam sistemas corporativos através de IA no Brasil.



