Enquanto a indústria brasileira se moderniza e avança rumo ao 4.0, um problema estratégico ameaça essa transformação: a escassez de mão de obra técnica qualificada. A rotina de manutenção industrial, peça-chave para manter equipamentos funcionando, evitar paradas e garantir produtividade, enfrenta um apagão de profissionais especializados que pode comprometer a competitividade do setor nos próximos anos.
Dados do Mapa do Trabalho Industrial 2022-2025, elaborado pelo Observatório Nacional da Indústria (CNI/SENAI), indicam que o país precisará qualificar cerca de 9,6 milhões de trabalhadores, com grande parte dessa demanda voltada para habilidades técnicas específicas que vão da manutenção preventiva à operação de sistemas automatizados.
Esse cenário não é apenas projeção: pesquisas mostram que 88% das empresas brasileiras relatam dificuldade em encontrar profissionais qualificados para funções que exigem conhecimento técnico real, dados acima da média global, que é de 66%.
Na prática, a falta de técnicos impacta diretamente a manutenção industrial. Sem equipes capacitadas em mecatrônica, automação e sistemas integrados, muitas fábricas veem crescer a dependência de manutenção corretiva, que só entra em ação após falhas, elevando custos operacionais e riscos de paradas inesperadas.
Para Jurandir Ferreira de Sousa, técnico em mecatrônica com ampla experiência em manutenção industrial, o problema já é palpável no dia a dia das fábricas. “A demanda por profissionais que entendam, por exemplo, de sensores, PLCs, monitoramento de máquinas e diagnóstico de falhas é muito maior do que a oferta. Isso atrasa cronogramas, pressiona equipes experientes e eleva o custo das operações”, explica.
O profissional ainda destaca que apenas o avanço tecnológico não resolve sozinho a crise de capacitação. “Automação, dados e digitalização só trazem resultados quando há profissionais capazes de interpretar sinais, ajustar sistemas e antecipar problemas. Isso exige formação técnica sólida e contínua atualização”, afirma Sousa.
Além disso, grande parte da força de trabalho qualificada está envelhecendo ou migrando para funções com maior remuneração, enquanto a formação técnica no país não acompanha a velocidade da transformação industrial. Para muitos setores, essa lacuna obriga empresas a oferecer salários mais altos ou terceirizar serviços, afetando custos e prazos de manutenção.
Diante desse cenário, academias técnicas, empresas e governos começam a ampliar iniciativas de treinamento e programas de capacitação rápida. Mas, para Jurandir, ainda falta um movimento mais robusto e integrado: “Precisamos investir em educação técnica desde o ensino médio, fortalecer parcerias com o setor produtivo e valorizar carreiras técnicas como uma escolha estratégica, não como alternativa”.
Sem essa mudança, o apagão técnico pode continuar a ser um dos principais obstáculos à modernização sustentável da manutenção industrial no Brasil, não por falta de tecnologia, mas por falta de pessoas capazes de operá-la e mantê-la funcionando.
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