Manutenção é custo sim. E reconhecer isso é o primeiro passo para a maturidade da gestão de ativos.
Em praticamente todo evento técnico, aula de pós-graduação ou discussão no LinkedIn surge alguém afirmando com convicção: “Manutenção não é custo, é investimento.”
A frase soa bem. É elegante. Parece valorizar a área. A turma guerreira do chão de fábrica enche o peito e repete o mantra.
Mas, do ponto de vista contábil e econômico, ela não é correta.
E aceitar essa realidade não diminui a importância da manutenção — ao contrário, fortalece seu papel estratégico.
Lá na Repblica de Del castilho, onde vivi minha adolescencia, a gente dizia e continua dizendo “aceita que doi menos“. Vamos às explicações.
A verdade contábil: manutenção é OPEX
Nas demonstrações financeiras de qualquer empresa existem duas grandes categorias de aplicação de recursos:
CAPEX (Capital Expenditure)
Investimentos em ativos que ampliam ou criam capacidade produtiva.
Exemplos:
- compra de máquinas
- construção de plantas
- aquisição de equipamentos
- grandes modernizações tecnológicas
Esses valores entram no ativo da empresa e são depreciados ao longo do tempo.
Já a manutenção, na imensa maioria dos casos, aparece em outra categoria.
OPEX (Operational Expenditure)
Despesas operacionais necessárias para manter a empresa funcionando.
Incluem:
- mão de obra de manutenção
- peças de reposição
- contratos de serviços
- inspeções e manutenção preventiva
- manutenção corretiva
- manutenção preditiva
Esses valores não geram um novo ativo.
Eles mantêm o ativo existente operando.
Portanto, na contabilidade empresarial, manutenção é sim uma despesa operacional.
O erro conceitual que muitos cometem
Quando alguém diz que “manutenção é investimento”, na maioria das vezes quer comunicar outra ideia:
A manutenção gera retorno econômico indireto.
E isso é verdade. Uma boa manutenção pode:
- aumentar a disponibilidade operacional
- melhorar a qualidade do produto
- reduzir perdas de produção
- evitar acidentes
- proteger o meio ambiente
- prolongar a vida útil dos ativos
Mas isso não muda sua classificação contábil. Na hora de lançar as despesas na gaveta certa das contas contébeis ela continua sendo OPEX.
A pergunta correta não é se manutenção é custo
A pergunta estratégica é outra:
Quanto custa para a empresa quando a manutenção não acontece como deveria?
Essa é a pergunta que separa organizações maduras de organizações reativas.
Quando a manutenção falha, o impacto aparece em vários lugares:
- parada de produção
- perdas de qualidade
- acidentes
- multas ambientais
- atrasos logísticos
- perda de clientes
- desgaste de imagem
Ou seja:
O verdadeiro custo não é fazer manutenção.
O verdadeiro custo é não fazê-la corretamente.
O papel do ICIO na equação econômica da manutenção
É nesse ponto que entra um conceito que venho desenvolvendo em meus estudos: o ICIO — Índice de Complexidade Industrial e Organizacional.
Empresas possuem diferentes níveis de complexidade:
- tipo de processo produtivo
- nível de automação
- risco operacional
- impacto ambiental
- exigências regulatórias
- cadeia logística
- interdependência de sistemas
Quanto maior o ICIO, maior o potencial impacto de falhas.
Em organizações de alto ICIO, uma falha pode gerar:
- milhões em perdas de produção
- paralisações completas de planta
- riscos ambientais severos
- acidentes graves
Nesses ambientes, o custo da não manutenção cresce exponencialmente.
A maturidade da manutenção muda a lógica do custo
Empresas com baixa maturidade de manutenção enxergam apenas uma coisa: o custo direto da manutenção.
Elas analisam:
- orçamento
- número de técnicos
- estoque de peças
- contratos de serviços
Já organizações com alta maturidade de gestão de ativos enxergam outro quadro. Elas analisam:
- custo da indisponibilidade
- custo da falha
- risco operacional
- impacto na cadeia de valor
- custo total do ciclo de vida do ativo
Nesse contexto, a manutenção deixa de ser vista apenas como despesa e passa a ser compreendida como instrumento de proteção econômica do negócio.
A manutenção protege o resultado da empresa
Quando bem estruturada, a manutenção atua como um sistema de proteção do resultado empresarial. Ela protege:
- a produção
- a segurança
- o meio ambiente
- a confiabilidade operacional
- a reputação da empresa
Isso explica por que organizações maduras utilizam indicadores como:
- MTBF
- MTTR
- Disponibilidade Operacional
- OEE
- Backlog
- Taxa de manutenção preventiva
Não para justificar orçamento.
Mas para proteger o valor do negócio.
Conclusão: assumir que é custo torna a manutenção mais estratégica
Dizer que manutenção não é custo pode parecer uma forma de valorizar a área. Mas, paradoxalmente, reconhecer que ela é um custo é o que permite gerenciá-la com inteligência.
A verdadeira maturidade acontece quando a organização entende que:
- manutenção é OPEX
- falha é perda de valor
- indisponibilidade é risco econômico
E que o papel da manutenção moderna é simples de definir:
Garantir que o custo da manutenção seja sempre menor do que o custo da falha.
Empresas que compreendem essa equação — especialmente em ambientes de alto ICIO — transformam a manutenção em algo muito maior que um centro de despesas.
Transformam-na em um dos pilares da sustentabilidade operacional e da competitividade empresarial.
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