Por Eros Viggiano, CEO e fundador da LogPyx*
Durante anos, a Internet das Coisas (IoT) foi protagonista em apresentações de tecnologia, sempre acompanhada de previsões sobre bilhões de objetos conectados em cidades, casas e fábricas. Nos últimos tempos, a inteligência artificial passou a ocupar esse espaço no debate público, o que pode dar a impressão de que a IoT perdeu relevância. Os dados e a prática operacional, no entanto, indicam exatamente o oposto.
Estimativas de mercado apontam que o número de dispositivos IoT conectados já ultrapassa a casa das dezenas de bilhões e deve praticamente dobrar até o fim da década. O volume de investimentos também segue em trajetória de crescimento, com diferentes estudos projetando que o ecossistema de IoT, considerando dispositivos, plataformas, software e serviços, movimentará valores na casa dos trilhões de dólares nos próximos anos. Em paralelo, o avanço do edge computing reforça que o processamento de dados próximo à operação deixou de ser opcional e se tornou parte essencial da arquitetura industrial e logística moderna.
Mais do que uma tendência tecnológica, a IoT consolidou-se como infraestrutura. Ela saiu do discurso e passou a operar nos bastidores, integrada ao dia a dia de quem precisa garantir produtividade, segurança e previsibilidade em ambientes complexos.
IoT na prática: onde a transformação realmente acontece
A mudança mais relevante não está mais na promessa, mas no tipo de problema que a IoT passou a resolver. Em vez de projetos experimentais ou pilotos isolados, a tecnologia hoje atua sobre gargalos concretos, com impacto direto em indicadores operacionais. Sensores, telemetria e dados em tempo real passaram a compor a base de decisão em fábricas, centros de distribuição e operações logísticas, funcionando como uma camada contínua de observação e controle.
Manutenção, disponibilidade e eficiência industrial
Em linhas industriais de setores como alimentos, bebidas, químico e automotivo, sensores IoT monitoram variáveis como vibração, temperatura, ciclos de operação e consumo elétrico de equipamentos críticos. A análise desses dados permite identificar padrões de desgaste e anomalias antes que falhas ocorram, alterando a lógica tradicional da manutenção.
Estudos e benchmarks globais indicam que iniciativas maduras de manutenção preditiva estão associadas à redução significativa de paradas não programadas, melhora consistente de indicadores como OEE e diminuição da dependência de estoques de emergência e intervenções corretivas. Na prática, isso se traduz em maior disponibilidade dos ativos, menos interrupções inesperadas e redução do custo por unidade produzida, fatores cada vez mais decisivos em ambientes industriais pressionados por eficiência.
Armazéns e centros de distribuição orientados por dados
Nos centros de distribuição, a IoT também deixou de ser conceito para transformar o chão de operação. Sensores instalados em esteiras, docas, posições de armazenagem e equipamentos internos, combinados a tecnologias de localização em tempo real, RFID e códigos de barras, permitem acompanhar continuamente o fluxo físico e a ocupação do estoque.
Essa visibilidade viabiliza a construção de gêmeos digitais do armazém, nos quais pallets, caixas, veículos internos e gargalos são monitorados em tempo real. Movimentações passam a ser registradas de forma automática, ordens de transporte podem ser geradas conforme prioridades e disponibilidade, e o lançamento no WMS ocorre sem intervenção manual constante. O armazém deixa de operar por ilhas de informação e passa a funcionar como um sistema integrado e dinâmico.
Pesquisas de consultorias globais e relatos de operações automatizadas indicam ganhos relevantes de produtividade, redução do tempo de ciclo interno e queda consistente de erros de endereçamento e retrabalho quando automação física é combinada a sistemas avançados de dados e controle.
Pátios, docas e o fim da gestão no “achismo”
Em pátios industriais e centros logísticos, a combinação de IoT e tecnologias de rastreamento em tempo real vem substituindo a gestão baseada em percepção por decisões orientadas por dados. Caminhões, carretas e ativos internos passam a ser monitorados continuamente, permitindo visualizar ocupação, filas reais por doca, tempos de espera e status operacional.
Implementações mais maduras mostram reduções expressivas no tempo médio de permanência, diminuição de custos associados a estadia e demurrage e menor atrito entre portaria, pátio e armazém. A tecnologia deixa de apenas registrar eventos e passa a orquestrar o fluxo de entrada e saída, aumentando previsibilidade e reduzindo o custo por tonelada movimentada.
Da segurança reativa à segurança preditiva
Entre as aplicações mais sensíveis da IoT está a segurança do trabalho. Em ambientes onde pedestres e máquinas pesadas compartilham espaço, sensores e dispositivos vestíveis permitem emitir alertas visuais, sonoros e vibratórios em tempo real sempre que a distância mínima de segurança é rompida.
Além do alerta imediato, esses sistemas coletam dados sobre quase-acidentes e situações de risco recorrentes, possibilitando a criação de mapas de calor e análises que ajudam a identificar zonas críticas e padrões perigosos. A segurança deixa de ser apenas reativa e passa a ser preditiva, orientando ajustes de layout, processos e comportamento antes que o incidente aconteça. Trata-se de uma aplicação em que a tecnologia não apenas melhora indicadores, mas contribui diretamente para a preservação da vida.
Da moda ao resultado
No Brasil, a adoção de IoT ainda apresenta maturidade desigual. Convivem operações altamente instrumentadas, especialmente em setores como mineração, agroindústria, automotivo e grandes operadores logísticos, com empresas que ainda dependem de controles manuais e baixa integração entre sistemas. Em comparação com Estados Unidos, Europa e polos asiáticos, o país já apresenta ilhas de excelência e um amplo espaço para expansão.
O ponto comum é que a IoT deixou de ser experimentação. Integrada a sistemas como ERP, MES, WMS e TMS, ela sustenta operações mais rápidas, estáveis e previsíveis, atributos fundamentais em ambientes industriais e logísticos cada vez mais pressionados por custo, prazo e segurança.
Para executivos, a pergunta já não é “se”, mas “por onde começar”. O caminho mais pragmático passa por identificar onde a falta de dados ainda gera custo ou risco, priorizar poucos casos de uso com impacto direto em indicadores e integrar essas informações aos sistemas existentes. Quando tratada como parte da rotina de gestão, e não como um projeto isolado de tecnologia, a IoT cumpre aquilo que prometeu: transformar dados em decisões melhores, todos os dias.
*Eros Viggiano é mestre em administração e cientista da computação. Fundou a LogPyx em 2015 com o objetivo de otimizar a logística interna e garantir a segurança dos trabalhadores.
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