In-Haus 750x120
oferecimento
Esqueci minha senha

Crônicas do Chão de Fabrica

cronicas

 

Quem o Navio Leva e Quem Leva o Navio?

- 05/06/2009

Navios levam cargas. Tipo cimento, frango congelado, automóveis, eletrodomesticos, petroleo e gás, ferro, trigo, soja e por aí vai. Alguns levam passageiros também. Aquele navio da Docenave, em meu primeiro embarque como Ofical de Máquinas, levava ferro em pelotas de Tubarão – Estado do Espírito Santo, para países como os EUA, trazendo trigo de lugares como o Canadá. E tripular um navio de longo curso era a realização de um sonho profissional. O trabalho era intenso em viagem. Em poucas semanas a bordo, trabalhando e convivendo 24 horas, a gente conhece as pessoas mais do que num programa de Big Brother. É que no navio não há cameras e premios. Ninguem precisa fingir. Voce é o que é, no trabalho e fora dele. E num navio, vive-se onde se trabalha.

CityPubli 750 x 120

O fato é que, depois de poucos dias, esbarrando o tempo todo no serviço ou nas refeições ou ainda pelos corredores e áreas comuns, sabia muito sobre os companheiros de jornada. E alguns me irritavam profundamente. O Fagundes era o pior. Era meu oficial superior. Sem maiores rodeios, o fato é que o cara era um porco, arrogante, metido a besta e muito preguiçoso. E ainda por cima gostava de aparecer com o serviço dos outros.

Mas, num navio há uma hierarquia. Tem que ter. Senão, não funciona.
E aguentar o Fagundes, era um sacrificio que se impunha. Fazia parte do trabalho.

Mas o cara passava da conta. Digamos, o tempo todo. Fui chorar minhas mágoas com o Imediato, o Oficial Carlos. Um cara legal, jovem nos seus 40 anos, com a experiencia de quem já tinha rodado os sete mares deste planeta.

É preciso explicar que na Marinha Mercante o pessoal de Máquinas náo se mistura com a turma de Náutica. Quem é do convés náo se dá com quem é da praça de máquinas. E vice-versa.
Diz-se que uns trabalham lá embaixo, fazendo a coisa andar e outros desfrutam a paisagem, a bela visão do mundo exterior. Alguma coisa parecida entre o pessoal do escritório e do chão de fábrica?

O Imediato, além de ser o segundo oficial na linha de comando, é responsável a bordo pelo pessoal. Uma espécie de RH flutuante. E nossa comunicação era boa. O Carlos sabia ouvir. Fui procura-lo.

Depois de iniciar a conversa e florerar sobre temas irrelevantes , fiz a abordagem direta, da forma direta possível para a ocasião:

– A coisa tá dificil. O trabalho é bom mas mal distribuído. Ficar sem fazer nada a bordo, numa viagem longa, é coisa pra maluco. Mesmo assim tem quem se dedique ao nada fazer. Há quem pegue no pesado e há quem simplesmente desconheça o que é isso. Como se resolve esse problema?

A resposta veio rápida: – O que não tem solução, solucionado está.

– Como assim? Não entendi nadinha.

– Simples. Voce é novo nesse negócio e tem muito a aprender. Isso aqui é um navio. E a bordo só existem dois tipos de pessoas. As que levam o navio e as que o navio leva. Voce decide em que lado se encaixa. E ao escolher seu time, jogue por ele. O resto não interessa. O que mais?

Fui cuidar do meu serviço. Estavamos chegando ao rio São Lourenço, no Canadá. Fazia um frio…

Abraços

Paulo Walter

In-haus 650x380
Publicado por: cronicas

5 Comentários


  1. André luiz espiula azaro

    Bom dia, penso que fazer parte de um navio é como fazer parte da vida é o mesmo principio, ou você faz ou só assiste ela passar. tem gente que não faz nada e aida atrapalha o bom andamento do serviço.

  2. Cleleyton Reis

    Concordo com o Que o Imediato Carlos falou ao Paulo, Sou Mercante e vejo isto na prática, e digo, com total tranquilidade que em geral, que a equipe da Sala de Máquinas levamos o navio. Um Abraço.

  3. wpereira

    Paulo Walter,
    não se iluda com a opinião do Imediato. Muito comum na MM.
    O conformismo com a falta de planejamento do trabalho e liderança demonstra despreparo de um elemento na cadeia que deveria zelar por estes fatores a bordo. A empresa por sua vez não possui um sistema que possa definir metas e resultados ao longo da cadeia de responsabilidades, garantindo a transmissão de experiência e conhecimento bem como garantindo a produtividade do negócio.
    Nunca se conforme com este padrão.
    Sucesso na sua carreira.

  4. ROBINSONQ

    O QUE NÃO TEM SOLUÇÃO, SOLUCIONADO ESTÁ!!!

    Esta afirmação acaba com qulaquer nível de motivação, se este estava pensando em fazer a diferença, não o fará. Isto significa:

    SEU APENAS +1 NO SISTEMA PRODUTIVO!!!

  5. Elizomar

    Caro Paulo, a Marinha Mercante vem evoluindo no decorrer dos anos.
    Tambem passei pela escola de oficiais da MM e como 2o Oficial de Máquinas, 1o Oficial de Máquinas e Oficial Superior de Máquinas tive que aprender muito sobre relacionamento, a bordo isto é potencializado devido ao tempo de confinamento.
    Trabalhando em terra a cerca de 20 anos, com passagens pelas áreas de operacão de navios, manutenção , contratação e atualmente coordenação de docagens de navios FSOs da Petrobras/Transpetro, além de alguns cursos de pós , MBAs, etc, diria que continuo aprendendo.
    Aos mais novos, que iniciam suas carreiras hoje no mar e em terra e pensando neles como irmãos mais novos, sugeriria que buscassem o aperfeiçoamento técnico que é como distinguimos os bons profissionais, porém atentem tbm para o bom relacionamento pois aí distinguimos boas pessoas e é fator preponderante para o bem estar no ambiente de trabalho e se fazer parte de uma boa equipe.

    Boa sorte a todos

    Elizomar Leocadio de Souza

× Converse no WhatsApp
monteeuse 750x120