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Crônicas do Chão de Fabrica

cronicas

 

O Caso Labareda

- 23/09/2008

Me lembro bem daquele primeiro trabalho na fábrica de bombas. Os nove estagiários selecionados foram distribuídos pelas áreas da fábrica. Cada um ganhou seu “kit operário qualificado”: uniformes (camisas), cartão de ponto, sabão de coco e 2 rolos de papel higiênico.
Nada de programa de integração ou EPI (só a bota), nenhuma instrução de conduta ou manual do trabalhador.
A coisa foi mais ou menos na base do bom dia, seja bem vindo e dirija-se a sua seção.
Como primeiro colocado do processo de seleção, tive direito a escolher onde queria trabalhar. As opções eram: Projeto, PCP (2), Controle de Qualidade, Marketing, Vendas, Teste Hidrostático, Produção e Manutenção.
Depois de alguma tempo na empresa, fiquei sabendo que a Psicóloga da área de seleção ganhara o premio do “bolão”, a aposta entre a turma do DP, ao cravar seu palpite de que eu escolheria a Manutenção para iniciar meu estágio de técnico. Ela tinha informação privilegiada: em meus testes saltava aos olhos que não gosto de rotina.
E há alguma coisa menos rotineira neste mundo do chão de fábrica do que manutenção? Curva de rio, tudo para ou passa por lá. A manutenção sofre na cheia, na seca e nas estações intermediárias. Há quem goste. E sou um deles.
Cicatrizes são marcas que o tempo fez. A gente não esquece o primeiro tombo, a primeira bronca, o primeiro elogio, o primeiro salário e o primeiro trote.
Depois veem a primeira realização e o primeiro fracasso, não necessariamente nesta ordem. E ambos são realmente inesquecíveis. Acontece assim o aprendizado, que é coisa de todo dia, não parando nunca mais.
Meu plano, ao ir para a Manutenção, era exatamente colar com quem sabia, copiar o que fosse bom e evitar o que houvesse de ruim.
E ver o que acontece aos outros também ajuda muito na tal curva do aprendizado. O que fazem seus colegas, o que acontece a eles, também duplica ou triplica seu campo de experimentação, sem passar pelas dores.
Assim foi no Caso do Labareda, que queria contar hoje.
Uma vez integrado ao Controle de Qualidade, o Labareda, estagiário como eu, fora destacado para começar pela sala de instrumentação. Era onde se guardavam os micrometros, paquímetros, calibres e outros instrumentos utilizados pela Usinagem e pela Ferramentaria. Para ele era o lugar certo.
Organizar, limpar, acondicionar, emprestar, controlar, receber, checar, guardar. Esses eram os verbos praticados naquela sala climatizada (um luxo em plena área de produção). Verbo é uma palavra que traduz uma ação e uma boa maneira de definir, de forma resumida, as atribuições e responsabilidades de uma determinada área.
E o Labareda, aprendiz que era, fazia o que o técnico da seção mandava. Etiquetava, limpava, aferia, guardava. A seção foi ficando um brinco, graças ao espírito organizador e limpo do garoto.
O “causo” começava aí.
O Técnico responsável pela sala, saiu de férias.
O Labareda, de batismo Renato, assumiu as funções. Conhecia tudo, sabia o procedimento, cuidava bem, estava preparado.
Até aí nada demais. O caso é que o Renato Labareda é dessas pessoas metidas a fazer mais do que lhe pedem ou mandam. Achou que podia dar uma melhorada no visual da sala, já que a faxineira só aparecia por lá uma vez por semana.
Depois de dar um trato em cada item sob seu controle, partiu para o inimaginável.
O Homem-Chama arrumou uma vassoura, balde e sabão e deu de limpar a sala nos momentos em que não estava recebendo, arrumando ou emprestando o instrumental. E pior. Resolveu limpar a grande vidraça da sala.
Era uma janela de vidro grande. E nosso herói limpava aquilo todo dia, com o maior prazer pois assim não ficava escondido pela camada de óleo de corte da neblina que vinha das máquinas de usinagem bem a sua frente.
O Labareda e sua sala ficaram transparentes (ele já era branco, cabelo vermelho, quase albino mesmo).
Coisa linda (a sala, bem entendido). Todo mundo elogiou. Bem, quase. Alguns interpretaram tal atitude como pura puxasaquice. Típico de estagiário querendo aparecer, diziam os maldosos e invejosos.
A dedicação do Laba (para os íntimos) fez com que ele fosse efetivado. Técnico registrado na carteira. Orgulho no peito e salário bom. Assumiu a Instrumentação sozinho, passando até a treinar a turma no melhor uso do material.
Passa o tempo (ele sempre passa, não é?) e vem o primeiro aumento de salário. A empresa tinha um programa de reconhecimento que permitia uns re-enquadramentos, de acordo com a avaliação que o profissional recebia.
O Labareda nessa deu azar (isso existe?). Sua sala ficava na produção, escondida entre o caminho do banheiro e a ferramentaria. Ninguém passava ali. Não era caminho de chefe e gerente daquela empresa. Seu trabalho não tinha visualidade, na expressão da palavra.
Primeira lição do Caso Labareda: faça bem e faça saber.O aumento espontâneo do Labareda foi uma merreca.
Dos técnicos efetivados na mesma data, portanto com o mesmo tempo de casa, seu “algo mais” foi o menor.
Labareda foi ao fundo do poço. Todo o esforço e resultados que produzira não eram considerados pela chefia. E para piorar, eu sabia, ele sabia, todos sabiam da tal avaliação pois os ex-estagiários, num belo exercício de camaradagem, partilhavam seus projetos e trabalhos, trocando experiências, mas também comparando salários e benefícios. O aumento era espontâneo, mas era uma avaliação do seu trabalho, do seu desempenho.
O nosso amigo ficou inconsolável.
Daí que, diante dos fatos, deixou-se levar pelo desanimo. Ficou triste, descuidou dos instrumentos, ficou burocrático, largou a sala de mão e seu ambiente voltou ao que era no dia em que ali entrara pela primeira vez.
Segunda Lição do Caso Labareda: Quem tem vidraça grande, um dia vai pagar por isso.Pouco dias depois do “desabar” da motivação do nosso personagem, eis que passa pela sala o gerente industrial. Suas idas e vindas pela produção não eram constantes, mas de vez em quando…
E não deu outra. O homem passou pela sala e viu, ou melhor, não viu o Labareda. A vidraça expressava a marca da decepção e a “cortina” de óleo não deixava ver quase nada lá dentro.
O gerente bateu no vidro e acenou para o vulto lá dentro. O Labareda abriu a imensa janela e recebeu o recado: – Você não tem vergonha deste seu trabalho de porco, com essa janela imunda, não? Você não vão longe com esse seu descuido profissional. Limpa isso tudo que não quero ver isso desse jeito amanhã, quando passar aqui de novo.
E se foi, deixando o Labareda em chamas.
Renato acabara de descobrir que a faxina da sala, principalmente da vidraça, fazia agora parte de seu escopo de trabalho.
Terceira Lição do Caso Labareda: a porta da rua é serventia da casa.
Ninguém é insubstituível, mas algumas pessoas fazem a diferença e para serem trocadas demora um pouco mais.
O Labareda e eu não ficamos muito tempo na empresa.
Cada um com suas razões, fomos em busca de outros ares, de espaço e oportunidades. Percebemos por nossas vidraças particulares que motivar pessoas é uma arte.
E arte, ah a arte, não se encontra em qualquer parte.

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Abraços, bom trabalho

Paulo Walter

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Publicado por: cronicas

17 Comentários


  1. Carlos Augusto

    Parabéns pela crônica muito bem elaborada e pertinente.
    Por acaso esse Labareda teria o sobrenome Loureiro?
    Sds,

  2. Paulo R. Viana

    Faltou mencionar que hoje ele é um excelente profissional, reconhecido entre seus pares e está numa posição gerencial significativa na indústria do Petróleo.

  3. Paulo R. Viana

    O Labareda é um excelente profissional e ocupa uma posição gerencial de destaque na indústria do Petróleo, sendo reconhecido pelo seu valor pelos pares.

  4. Pedro Brunelli Netto

    Caro Paulo;
    Parabéns por este seu trabalho e amor pela manutenção. Suas histórias e estórias tive o prazer de conhecer qdo o conheci.
    Esta aqui do Labareda eu já tinha ouvido mas não com este requinte dos detalhes. aliás nao me lembro se na época o nome do personegem havia sido dito.
    As lições aqui lembradas sempre serão válidas. Infelizmente.
    Grande abraço.
    Pedro Brunelli Netto.

  5. Renato

    Sou presidente do Sindicato dos Funcionários Públicos de Delta-MG. O labareda tem muito a ensinar no setor Público, mas aqui ele não muda de empresa e passa muito tempo apenas reclamando e como a maioria dos munícipes dizendo que no setor público não tem jeito. Realmente temos que aprender com o Labareda.
    Obs:- meu nome também é Renato
    Obrigado Walter suas histórias nos ajuda muito tenha uma boa semana

  6. Dilsa Santos

    Gostei muito do caso labareda.

  7. Flávio A Halliday

    São exemplos que servem para todas as áreas!

  8. Israel Ribeiro

    Caro Paulo

    O caso Labareda, é um exemplo do que acontece muitas vezes com a Liderança.
    Pois muitos lidereres , dão pouca atenção para os colaboradores que normalmente superam a expectativa em suas funções, pois este são os menos preocupam , pois sempre estarão exercendo suas funções em nível superior .
    Mas o caso serve com reflexão , para que os lideres passem a dar valor aos colabores que sempre estarão dando o maximo de si, pois estes tambem precisam de feedback. E em alguns casos como o do Labareda , o mesmo teve que ficar desmotivado para que chamasse a atenção da liderança.
    abraço

  9. Leila

    Deixar-se abater diante da falta de reconhecimento é humano, continuar fazendo o melhor mesmo que ninguém perceba seu esforço é heróico, buscar novos caminhos e melhores oportunidades, chamo de inteligência.

    Grande Abraço

    Leila

  10. Leo

    Uma pequena alteração, pelo meu ponto de vista Capitalista:
    “Deixar-se abater diante da falta de reconhecimento é fraqueza, continuar fazendo o melhor mesmo que ninguém perceba seu esforço é burrice, buscar novos caminhos e melhores oportunidades, é obrigação.”

    Não esqueçam que por pior que possa parecer, por mais frio que seja, TUDO gira em torno do dinheiro.

    abraços

  11. Janine Avelar

    Parabéns Paulo!
    Adorei a história que é, realmente, o nos acontece pela vida a fora entre uma empresa e outra.

    Abraços

  12. Roberta

    Crônica extremamente interessante.
    Sou estagiária numa indústria farmacêutica, e como pessoa normal, às vezes, me desmotivo pela falta de reconhecimento, ou por fazer o operacional que muitas pessoas não querem fazer.
    Mas o que me ajuda bastante, acredito, é a minha vontade de progredir intelectualmente, de conhecer os caminhos e tentar achar o meu norte.
    Estes fatores somente agregam. O choque e a desilusão estão sempre presentes na vida daqueles que, de alguma forma, não concordam com o modo vigente pelo qual as coisas se ocorrem.
    Estou adorando este blog. Aguardo outras boas crônicas e histórias.
    Abraços,

  13. Albano

    Valter, mais uma vez meus parabens, a cronica é rica e os Labaredas existem, basta ele se auto avaliar, se o que está fazendo é de suma importância para todos.
    Algumas funções exigem mudanças rotineiras, outras com mais cautela, mas nenhuma exige que fiquemos estáticos. Bem elas chegam para aprendermos, isso com certeza, e o que levamos são experiências para serem somadas e contadas em nossas vidas.
    Parabens do amigo Albano

  14. Leila

    Prezado Leo,

    Respeito sua visão capitalista, mas confesso que apesar de trabalhar na area financeira prefiro acreditar que apesar da sua importancia, nem tudo gira em torno de dinheiro, e que ele é a consequência da satisfação de um trabalho realizado com dignidade e dedicação.
    “O homem que trabalha somente pelo que recebe, não merece ser pago pelo que faz.” Abraham Lincoln

    Grande Abraço.

    Leila

  15. joselito batista emerenciano

    Nós temos que ter os objetivos buscando que ás pessoas ao seu redor comprienda o que vc, esta fazendo é qual o proposito de sua missão. o grafico de um profissional deverá ser constante, buscando a graduação.

  16. Fábio Giovani

    Excelente crônica Paulo.

    Isto acontece em todo lugar e em todos os setores, mostrando como perdemos bons profissionais, não pelo fato financeiro apenas, e sim pelo simples reconhecimento de empenho profissional.
    E espero que possamos enxergar de forma holística nossos ambientes de trabalho para não perdermos os talentos que não esperam somente ser reconhecidos pelo aumento de salário, mas também pelas sua atitudes, bons desempenhos, próatividade……….. E tenham certeza que existem muitas formas de agradecer, icentivar e com isso motivar pessoas a sempre fazer o seu melhor.

    Parabéns pelo trabalho

    Até a próxima

    Fábio Giovani

  17. Sidney Portugal Andrade

    Considero como insubstituível as qualidades da pessoa e a maneira de agir em determinadas situações.
    Bons profissionais estão cada dia mais difícil, devido a falta de conhecimento e facilidade de absorver os desafios do dia a dia. Ser proativo é sempre bom, porém o conhecimento e as boas qualidades fazem sim a diferênça. Ficar exposto e dar a cara para bater, não são qualidades de muitos. Tais pessoas devem ser valorizadas.

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