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Crônicas do Chão de Fabrica

cronicas

 

Liderança e conhecimento, mesmo na hora de dar uma parada brusca

- 10/02/2009

O navio, depois de quase três meses fora do Brasil, entrava na baía da Guanabara em meia força. Fim de tarde e, para quem conhece o Rio de Janeiro, sabe que aquela paisagem é simplesmente estonteante de bela.

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Mas meu trabalho era lá embaixo, na Praça de Máquinas. E em regime de manobra, a moçada de máquinas tem muito o que fazer, menos apreciar as chegadas e saídas.

Depois de uma chorada junto ao Chefe de Máquinas, afinal era a primeira vez que entrava num navio cargueiro na baía da minha cidade natal, fui liberado pra dar uma espiadinha. Deveria ser rápido e retomar meu posto.

Subi à Ponte de Comando, oito andares acima e, retomando o fôlego, me coloquei numa posição onde não atrapalhasse o pessoal de convés, que estava em sua faina de fundeio. Comecei a tirar fotos. Tudo parecia ir bem. A paisagem, a entrada na baía, o navio deslizando no mar calmo das águas abrigadas, o Pão de Açúcar a boreste, a brisa …

O navio estava nas mãos do Imediato. O nosso capitão era chegado a dar aos seus subordinados várias oportunidades do aprendizado, de se exercitarem nas tarefas diversas que se enfrenta a bordo de um navio mercante. E até por essa característica, o homem era taxado de preguiçoso. Não fazia nada. Os outros oficiais é que carregavam o navio.

Aquele belo momento da chegada, do fundeio (operação de lançar âncoras e aguardar pelo Prático – uma espécie de flanelinha de luxo de porto), de repente se transformou num episódio de grande tensão e perigo. Não me pergunte como nem porquê,  nem de onde, mas a maré mudou. Assim, do nada, muito de repente.

Os navios que já estavam fundeados, antes da Ponte Rio Niterói, todos se movimentaram ao mesmo tempo, rapidamente, fazendo o giro ao redor de suas âncoras. Assim, quase num piscar de olhos, aquele monte de navios. E eram muitos de todos os portes. Distantes entre si 200, 300 metros, começaram a girar, acompanhando a maré que virara vazante. Todos de ré para a saída da baía. Ou seja, os mais próximos se viraram contra nós que chegávamos.

O fim de tarde era realmente belo, mas a situação ficou feia. Parar um navio de 72.000 TDW, com 212 metros de comprimento, carregadinho de trigo, não é algo assim tão fácil. Tem o tal do seguimento, um negócio que na física se chama quantidade de movimento.

O que ocorrera é que o nosso Imediato escolhera a posição de fundeio, numa área congestionada, até porque não havia muitas opções. Mas seu erro fora a velocidade com que entrara na área. Excesso de confiança? Má leitura da situação? Falta de informação? Pressa? Nunca saberemos.

Quem já esteve numa Ponte de Comando, numa operação de manobra, sabe da tensão que reina no ar. Todos concentrados, cada um na sua tarefa, cada um no seu papel. Só o comandante da operação fala. Os outros respondem ou agem. Só.

Com a mudança súbita da maré, com aqueles navios virando na nossa direção, a adrenalina veio pelo walkie-talkie e pelos alto-falantes. Vai bater! A maré mudou! O capitão assistia tudo, com seus óculos Ray-ban, cachimbo abastecido e fleuma maranhense, ao fundo daquele grande ambiente onde sobressaía a roda do leme na mão do marujo calejado. O Imediato, que corria de uma asa a outra do Passadiço, pergunta, já passando o comando ao chefe: E agora, Capitão?

O homem não titubeou. Passou a mão no telégrafo (meio de comunicação com a Praça de Máquinas) e marcou PARADA TOTAL. Depois do “confirmo” da turma lá de baixo, igualando a posição do telégrafo, coisa de 3 segundos, o capitão bradou em voz de comando: leme a bombordo, total. A âncora foi lançada na sequência das diversas reversões do motor principal.

Não vou descrever toda a operação, um show de manobra num estacionamento lotado e um navio grande se desviando em meio a imensas estruturas em  movimento, como se fosse um balé.

No mar não temos derrapadas nem cavalos de pau, como os carros em terra, mas se tivesse, o barulho seria ensurdecedor, com marcas de pneu e tudo.

Deu tudo certo. Tiramos alguns fininhos – 8, 10, 12 metros é coisa de arrepiar, quando estamos no mar e em navios grandes – mas estacionamos, digo, fundeamos sem maiores problemas, com a âncora fazendo o papel limite. Nos outros navios se viram caras assustadas e, ao fim da manobra, gestos de aprovação e aplausos. É, teve até platéia.

O trabalho foi de equipe. E que equipe! Na praça de máquinas – para onde eu corri assim que vi que havia um trabalho importante a fazer e minha contribuição seria sentida – todos fizeram sua parte, fazendo o motor principal roncar nas idas e vindas e sistemas auxiliares idem. No convés, os Oficiais, o Imediato e o Mestre e seus marinheiros, mostraram como força, preparo e determinação são importantes para encarar desafios.

E na Ponte de Comando, o chefe. O tal preguiçoso, na realidade um chefe descentralizador, mostrara a competência e a sabedoria para encarar o perigo.

Passado o episódio, fica o aprendizado. Em tempos normais, devemos aprender, pois a rotina também ensina. Mas na hora do aperto, liderança e conhecimento (sangue frio no cardápio), fazem muita diferença. Podem fazer “a diferença”.

Lembrei desta história por causa da crise e do que se passa em muitas empresas. Algumas conhecemos bem de outras jamais ouviremos falar. Quem viver, contará.

Foi uma honra ter viajado e trabalhado sob o comando aquele sujeito baixinho, meio caladão, sempre bem passadinho, bigode bem feito e atitudes sempre calmas. Foi um tempo de crescimento acelerado.

Foi sorte. Ou não?

PW

PS – Parada brusca

 – Tempo para atingir a velocidade zero, avanço, abatimento, mudanças de aproamento, relação de rpm da máquina/eixo x tempo, da terminologia da Marinha Brasileira. 

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Publicado por: cronicas

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