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Crônicas do Chão de Fabrica

cronicas

 

Lei Número 1 ou Lei de Jackson: O Chefe sempre tem razão.

- 01/11/2008

Um dos preceitos da gestão moderna é a participação, engajamento completo das equipes nos objetivos e metas da empresa.

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Empresas são feitas de pessoas e, sem que elas estejam motivadas, de nada valem as melhores máquinas e instalações, os melhores processos.  O sucesso (e na crise a sobrevivência) vem pela contribuição efetiva das pessoas, cada uma individualmente.

A Lei de Jackson, sobre pessoas, foi registrada no laboratório do Chão de Fábrica de uma empresa de Manutenção e Montagens, lá na década de 1990.

O Sucesso pode doer

A tal empresa crescia rápido e estava sofrendo de um mal que acontece com as pessoas na adolescência. Com empresas também.  Crescer e amadurecer faz parte do ciclo de vida. Alguns e algumas crescem, mas não amadurecem. E aí vem as dores. As dores do crescimento.

E naquela empresa a dor estava ficando insuportável. Apesar, ou por causa dele – o sucesso em vendas – o clima estava péssimo.

Os Diretores-Donos tinham características pessoais concentradoras e autoritárias. Uma coisa é você ter uma empresa onde conhece seus empregados pelo nome, outra é ter um corpo empresarial onde a cabeça está fisicamente longe dos pés. Se você quer correr, não vai fazê-lo olhando para os pés. Deve olhar para o caminho.

Para muita gente delegar responsabilidades, decisões, é algo inaceitável. Aceitar opiniões diferentes das suas então… uma verdadeira heresia.

E ali na sede da empresa, no núcleo pensante, a coisa estava feia. Vendia-se, mas entregar com qualidade estava difícil. E os problemas estavam pipocando aos montes. Sobra pra quem?

Pausa para um Café

Para dar uma aliviada e tentar quebrar o ciclo vicioso que se aprofundava, um dos diretores criou um programa chamado Café com o Diretor. Coisa simples: um café da manhã por mês, caprichado, com pão quentinho, mortadela, sucos, queijo, manteiga, frutas e espaço para um papo livre de toda a equipe da Sede com um dos Diretores. Nada de novo, algo que muitas empresas já praticavam na época.

O programa era pra acontecer com os três diretores, um a cada evento, uns 40 profissionais: de engenheiros a secretárias, técnicos, compradores, orçamentistas, vendedores.

No primeiro Café – o start-up no programa – com todos os diretores presentes explicando o sentido da coisa, foi uma beleza. Que turma alegre e tagarela! Houve um bom retorno e foi criada uma grande expectativa sobre os efeitos benéficos nas relações entre as pessoas e, principalmente, com os diretores. Parecia empresa moderna, comunicação aberta, com todos podendo dar opinião e melhor – serem ouvidos.

O negócio era simples: em torno de uma mesa farta, com descontração, as pessoas conversavam sobre o que queriam – inclusive com o Diretor presente – dando sugestões, fazendo críticas, passando reivindicações, trocando impressões. Na base do Eu posso, Tu podes, Nós podemos.

Antes de entrar em cena, saiba bem qual o seu papel

O Jackson, que deu nome à Lei, era um técnico que trabalhava no Projeto. Um moreninho magrelo, jeito de malandro, andar bamboleante, língua ferina, um sujeito engraçado e querido por todos. E um bom trabalhador.

Chegou o quarto Café da Manhã e era com o Diretor Comercial, o Augusto.

Jackson era subordinado direto do homem. E aguardava com ansiedade esse dia. Tinha uma reclamação a fazer sobre o próprio Augusto: não aguentava mais ser tratado aos gritos e berros, com palavras não comerciais e adjetivos nada profissionais. Coisa de chefe explosivo.

A empresa parecia se modernizar nas relações humanas e aquela era a oportunidade, como dizia ser o conceito do Programa. Preparou-se e tomou coragem. Aquele era o dia.

O Chefe é o Chefe. Esqueceu?

Depois de um sanduba aqui, um suquinho ali, uns biscoitinhos acolá, o Jackson foi se chegando no Chefe.

É óbvio que todo mundo queria falar com ele. Era mesmo para aproveitar o clima do momento e chegar junto.

O papo rolava solto e versava sobre trabalho em equipe, resolução de problemas, melhoria da qualidade. Todo mundo sabia sobre o que o Jackson ia falar e ele deu o bote na hora certa.

– Augusto, tem uma coisa que me incomoda muito e acho que incomoda a todos aqui, principalmente aos que trabalham com você diretamente.

Silêncio geral. Respirações suspensas. Ninguém mastiga, engole ou se mexe. É agora. A hora da onça beber água (ou engolir o Jackson!).

A cara do Diretor não pareceu mostrar preocupação, afinal o papo tava bom, bem humorado, do tipo eta programinha bem bolado.

– Fala Jackson, do que se trata?

Ninguém se mexeu, mas parecia que todos haviam dado uns dois passos atrás. Menos o decidido Jackson e o imóvel Augusto.

– Seus berros e insultos. Tá certo que às vezes a gente perde a paciência ou não está num bom momento. E todo mundo tem direito a uma explosãozinha de vez em quando, mas com você a coisa é sempre. Levar bronca já é ruim, pior ainda com gritos, na frente de todo mundo e sendo xingado. Do jeito que a coisa vai, vamos todos parar numa clínica de repouso. Ninguém gosta de ser tratado como cachorro o tempo todo.  

O Augusto olhou no fundo dos olhos do Jackson. A expressão facial foi da incredulidade ao horror.

Depois do jorro de palavras num só fôlego, Jackson aguardava o desfecho. O leve sorriso em sua boca denunciava seu pensamento: Te peguei! Berre agora ou cale-se para sempre.

O Chefe sempre tem 100% de razão. Às vezes mais que isso.

A resposta veio em forma de pergunta:

– Alguma vez em que gritei com você ou com quer que seja, eu tinha menos que 104% de razão?

 Aquela resposta, que nem resposta era, não era esperada. Ninguém esperava. O Jackson não esperava. Não era o que o Programa esperava.

Impressionante como os pensamentos podem fazer barulho. Movimento lento das pessoas colocando seus copos sobre as mesas, limpando a boca com guardanapos, retirando-se vagarosamente, despedindo-se umas das outras, entreolhando-se com expressões óbvias.

Aquele Café foi o último. O Programa melou, mas escancarou o problema que não podia ser resolvido.

Se você não pode mudar, mude-se.

O Jackson talvez não saiba, mas a sua lei está de plantão em muitas empresas e organizações. Os Jacksons e Augustos são encontrados por todos os rincões do planeta. O convívio entre eles é determinado e só existe, por incrível que pareça, pela vontade dos Jacksons, apesar da posição de chefia dos Augustos.

O direito de ir e vir, submeter-se a ouvir ou não o que não se gosta, fazer ou não o que não se quer, é decisão pessoal. Você decide. Na empresa, na comunidade, na sua casa. O Jackson se foi. Ficou quem quis.

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Publicado por: cronicas

9 Comentários


  1. Leila

    PW sobre o texto posso expressar tres pensamentos que li em algum lugar, e por alguma razao me fizeram algum sentido naquele momento da minha vida, e repito varias vezes a minha equipe.

    “Voce tem direito de nao estar bem, mas nao tem direito de ser cruel”.

    “As pessoas só te fazem aquilo que voce permite que elas façam”

    “Nada como um dia apos o outro com uma noite no meio pra mudar o jogo da vida”.

    Grande abraço.

  2. José Pires

    Paulo, como tive o privilégio de trabalhar com você, passamos por momentos em que pudemos identificar os Jacksons e os Augustos da Empresa. Líder é aquele que motiva a equipe de forma natural, entendendo as dificuldades e mostrando a direção certa, sem ser prepotente e cruel. Mesmo não estando em um bom dia, toda a equipe tem que ser tratada com respeito e merece toda a atenção. Nós que tivemos a experiência direta de trabalharmos em uma “tirania” onde os “Consultores de Deus” só seguiam a vontade própria, por vária vezes nos perguntamos “Para que nos reunirmos e darmos opiniões?”, porém, quando as opiniões do grupo eram acolhidas, o sucesso da atividade era garantido. O que precisamos é trocar de “Lei de Jackson” para “Jackson muitos os envolvidos, por que não ouví-los?”(Trocadilho)
    Grande abraço

  3. Paulo Rucks

    Sr. Paulo, agradeço a oportunidade e mais uma vez pela contribuição propiciada pelo Grupo Manut. Tenho vivido situação semelhante na instituição onde atuo e posso garantir que em face ao avanço das relações e do mercado todos perdem com pensamentos e atitudes como estas, pois inibindo a participação dos funcionários nas decisões da empresa perde-se opiniões e contribuições preciosas baseadas na experiência de quem está a frente de sua área/depto e que conhece como ninguém as necessidades, tendências e anceios do mercado e dos clientes/consumidores. Isto sem comentar que impede a efetiva vivência e coibe o desejo do profissional que é participar da vida ativa de sua companhia. Perde o profissional, perde a empresa e por consequência perdem também os clientes. Quando se quer crescimento ou sobrevivência é preciso se preocupar com o cliente interno. Forte abraço!

  4. Vanda Miranda

    Sou leitora assídua do ” Crônicas do Chão de Fábrica”. Lendo a Lei de Jackson, resolvi mandar meu comentário por ter participado de uma empresa com as mesmas características, como profissional de RH. tentei, em vão, mostrar à diretoria que o problema da falta de qualidade dos setores era falta de motivação, de reconhecimento, de investimento no capital humano. Os empregados viviam em clima de pavor. Pavor de errar e de ouvir gritos e insultos. Incompetência era o que mais se ouvia.
    Solução mais fácil: demissão. Resultado: Turn-over altíssimo. Resolvi sair.
    Pergunto: Contrariando todos os preceitos da administração moderna sobre a importância do capital humano, como uma empresa com essas características consegue continuar operando?

    Um grande abraço

  5. Jeferson Stucchi

    Paulo, tenho aqui uma pequena historia que simplifica a lei de jackson:
    Havia um gerente de mkt que tomou um decisão errada ao anunciar um produto, essa decisão custou a empresa 1 milhão de reais.
    No outro dia todos comentando sobre o ocorrio, o diretor mandou avisar que assim que o gerente chegasse,era para se dirigir até a sala dele.
    Por fin o gerente sabendo que iria ser mandado embora arrumou suas coisa e foi até a sala do diretor.
    O gerente nem deixou o diretor falar e foi logo dizendo: Eu compreendo e assumo o erro, pode me mandar embora.
    O diretor dá um grito “O SENHOR ESTA LOUCO”, acabei de investir 1 Milhão de reais para que não erre de novo!!!!

  6. Maria Julia

    Lembro de uma história sobre um mestre indiano, ainda vivo, que orientava seus discípulos, em algumas ocasiões, de forma vigorosa e enérgica. No entanto, suas palavras eram repletas da compaixão humana e exatamente por isso os resultados eram surpreendentes: os discípulos bem orientados tornavam-se multiplicadores de conceitos no seu trabalho e no lar.
    Vez por outra retornavam ao mestre para dizer o que deu ou não deu errado em seus conselhos, fazendo com que o mestre reavaliasse suas novas orientações. Isso se chama gestão “para cima” e “para baixo”.
    Quem foi que disse que o Jackson não poderia empreender uma gestão sobre seu chefe e, na medida certa, sem despejar tudo de uma vez, orientá-lo sobre seu comportamento predador da motivação e dos resultados da empresa?
    Jacksons e Augustos precisam se atualizar sobre as novas tendências da gestão de pessoas.

  7. Mel Custodio

    Tem um texto do Paulo Coelho que me serve de inspiração nos momentos que preciso de sabedoria e paciencia:
    COMO TEMPERAR O AÇO
    Lynell Waterman conta a historia de um ferreiro que, depois de uma juventude cheia de excessos, decidiu entregar sua alma a Deus. Durante muitos anos trabalhou com afinco, praticou a caridade, mas, apesar de toda a sua dedicação, nada parecia dar certo em sua vida.
    Muito pelo contrário: seus problemas e dúvidas acumulavam-se cada vez mais.
    Uma bela tarde, um amigo que o visitava, e que se compadecia de sua difícil situação, comentou:
    – É realmente muito estranho que, justamente depois de você resolver se tornar um homem temente a Deus, sua vida começou a piorar. Eu não de¬sejo enfraquecer sua Fé, mas, apesar de toda a sua crença no mundo espiritual, nada tem melhorado.
    O ferreiro não respondeu imediatamente: ele já havia pensado nisso mui¬tas vezes, sem entender o que acontecia em sua vida.
    Entretanto, como não queria deixar o amigo sem resposta, começou a fa¬lar – e terminou encontrando a explicação que procurava. Eis o que disse o ferreiro:
    “Eu recebo nesta oficina o aço ainda não trabalhado e preciso transformá-lo em espadas. Você sabe como isso e feito?
    _ Primeiro eu aqueço a chapa de aço num calor infernal, até que ela fique vermelha. Em seguida, sem nenhuma piedade, eu pego o martelo mais pesado e aplico vários golpes, ate que a peça adquira a forma desejada.
    “Logo ela mergulhada num balde de água fria, e a oficina inteira se en¬che com o barulho do vapor, enquanto a peça estala e grita por causa da súbita mudança de temperatura.
    “Tenho de repetir esse processo ate conseguir a espada perfeita: uma vez apenas não é o suficiente.”
    O ferreiro fez uma longa pausa, acendeu um cigarro e continuou:
    “Às vezes, o aço que chega as minhas mãos não consegue agüentar esse tratamento. 0 calor, as marteladas e a água fria terminam por enche-lo de rachaduras. E eu sei que jamais se transformara numa boa lamina de es¬pada.
    “Então, eu simplesmente o coloco no monte de ferro-velho que você viu na entrada da minha ferraria.”
    Mais uma pausa, e o ferreiro concluiu:
    “Sei que Deus está me colocando no fogo das aflições. Tenho aceitado as marteladas que a vida me da, e as vezes me sinto tão frio e insensível como a água que faz sofrer aço. Mas a única coisa que peço é: ‘Meu Deus, não desista até que eu consiga tomar a forma que o Senhor espera de mim. Tente da maneira que achar melhor, pelo tempo que quiser – mas jamais me coloque no monte de ferro-velho das almas’.”
    ————————————————————————————–Estar aberto a aprender é um dom,e reconhecer que esta errado éo primeiro passo para uma carreira promissora…

  8. maluko

    teorias..e mais teoria…..trabalhem

  9. Reinaldo Schumann

    Numa época como a atual em que os gestores andam meio sem rumo confundindo motivar com passar a mão na cabeça, tolerar a incúria e aceitar comportamentos inadequados e/ou resultados insuficientes, este texto mostra que mesmo um instrumento como o “café com o chefe”, do qual participei por muitos anos consecutivos em uma mesma empresa, com resultados excepcionais e que é uma ferramenta de baixíssimo custo de implantação e enorme retorno, pode ser inviabilizada por falta de treinamento dos envolvidos.
    Qualificar a liderança, preparar o ambiente, planejar o método, os pontos de medição e as metas individuais a alcançar são absolutamente fundamentais para o sucesso de programas como estes. Ter um acompanhamento profissional inicial é muito importante para garantir a evolução e o amadurecimento do programa.
    Os líderes do futuro são de uma geração pouco afeita a lidar com contrariedades e dissabores fato que requer das empresas sua detecção precoce e um maior tempo de treinamento para evitar que seções de aconselhamento desmotivem ou que reuniões de feedback se transformem em futuras ações de assédio moral.
    Que tal alterar o texto da Lei de Jackson para “O chefe, os subordinados e todos os demais envolvidos sempre têm razão” e tornar este fato em algo útil para a empresa?

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