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Paulo Walter

Gestão Estratégica de Negócios

Paulo Walter

 

Gestão Empírica na Manutenção, o mal que assola nossas empresas. Ou não?

- 06/02/2017

Outro dia desses, num grupo de Whatsapp do qual participo, li um comentário que me arrepiou a alma: “Mais vale a experiência de campo que qualquer curso ou formação nestas metodologias e teorias novas que vira e mexe aparecem por aí”.

O tal comentário no Whats foi a propósito de um curso de formação em manutenção preditiva, que estava sendo divulgado, e custava algo acima das possibilidades do emissor do comentário. Sem grana para fazer o investimento no curso, a pessoa partiu para o desdém da aquisição de conhecimento através da habilitação formal. O grupo, ao qual me refiro e de onde vem a inspiração para este texto, tem mais de 200 participantes. São profissionais de muita qualificação e, somando todos, a conta vai a séculos e séculos de chão de fábrica. Tem gente de tudo quanto é canto e tipo de empresa. Gente que contrata e gente que presta serviços. É um pessoal que trabalha muito, espalhados pelo país todo. Estão em fábricas de cimento, papel e celulose, plataformas de exploração de petróleo, refinarias, etc., etc.. Estão literalmente embarcados em equipamentos os mais variados, que exigem atenção 24 horas do dia.

O fato é que fiquei com aquele comentário na cabeça por meses. Daí resolvi escrever sobre. Achei que podia expandir o assunto e falar um pouco mais sobre o empirismo que nos assola.

Empirismo é a atitude de quem se atém a conhecimentos práticos.

Longe de mim menosprezar a experiencia de campo. Sei muito bem que para subir ao Monte Everest, no Himalaia, é preciso muito treino em montanhas menores. A coisa é paulatina. E fundamentalmente, para se ter alguma chance de sucesso, ser guiado por quem já esteve por lá antes. Ou seja, para chegar no topo, vá com quem já esteve lá. Experiencia.

Saindo do mundo das escaladas e baixando aqui para nossa realidade, sabemos que há uma crise séria rolando aqui e agora. O mercado está estreito, as perspectivas pouco claras, as oportunidades, raras. Qual a solução para se sobreviver e seguir adiante?

O gestor empírico, aquele que acredita que a vivencia nos fatos é a resposta para tudo, não sabe o que fazer diante de problemas novos. Na Manutenção, empirismo está associado a consertador de falhas. Resolvedor de defeitos manjados. Gestão idem.

Não peça ao gestor empírico que busque ou aplique novas abordagens em seus processos. Estejamos falando de planejamento, programação, execução ou controle, a resposta pronta é: sempre fizemos assim e foi assim que chegamos até aqui.

Para empíricos há um manual não escrito com definições claras do que pode e do que não pode. Com eles não fale sobre terceirização de processos, benchmarking, planejamento plurianual, metas e objetivos cruzados, revisão de blocos, indicadores temporários, auditorias externas, 6 Sigmas, ciclo de vida útil, pareto de campanha. Use palavras simples como consertar, reparar, repor, macarrão, bacalhau, barbante.

O empírico não dorme, não viaja, não tira férias, não tem fim de semana, não sai para treinamento. Está sempre a postos e a disposição. O empírico está sempre a bordo. Empíricos não têm números, odeiam gráficos de tendencia, têm alergia a controles como backlogs, imaginam que alguém da Contabilidade é que cuida da válvula que controla o fluxo de caixa. O gestor empírico se preocupa apenas com máquina parada e máquina rodando. Empírico valoriza o indivíduo e não manda bem com equipes.

O gestor empírico consegue falar do passado, mas não tem muito a dizer do futuro.

Há um ditado que diz que cada empresa tem a Manutenção que merece. Empresa empírica, Manutenção idem.

Voltando lá no início, no grupo de Preditiva, a pergunta que sobrou é: como alguém que trabalha com preditiva pode ser considerado empírico? Simples. Basta colocar a preditiva a reboque, ao invés de ser o carro abre-alas. Ou seja, use as medições e monitoramentos para justificar falhas ao invés de usar as informações colhidas para antecipar problemas. Nada mais empírico que se consertar algo, sabendo direitinho como se chegou à condição de máquina quebrada.

Faça o teste. Pergunte ao seu gerente ou diretor se ele é empírico. Se ele responder que empírico é a mãe, cuidado! Não trate de inovação onde melhoria é palavrão.

Abraços

Paulo Walter

Consultor em Gestão de Serviços

www.limawalter.com.br

Publicado por: Paulo Walter

6 Comentários


  1. Roberto Jorge Cordeiro

    Excelente artigo Paulo Walter. O empirismo prevalece em muitas empresas, tanto que um profissional experiente tem seu valor, pela quantidade de problemas que ele resolveu.
    A implantação de novos conceitos e uma gestão moderna passa por registro e controle, que em muitos casos, se tornam vilões ao invés de serem os mocinhos da história.
    A manutenção tem ainda muitos paradigmas a serem quebrados.

    • Paulo Walter
      Paulo Walter

      Roberto, agradeço seu comentário. Com a larga experiencia profissional que você tem, já deve ter visto de tudo um pouco. E concordamos que sempre podemos melhorar os processos sob nossa gestão e a nós mesmos, não perdendo as oportunidades que se nos apresentam todos os dias.

  2. Alessandro Trombeta

    Muito pertinente este tema Paulo. O empírico vive do passado e tem medo de compartilhar suas experiências, achando que se alguém mais souber como resolver aquele problema tão específico ele pode perder o seu emprego. Empresas com este tipo de manutenção serão sempre medianas e com processos frágeis. Sempre em risco!

  3. Marcelo Ney

    Muito interessante o teu ponto de vista Paulo. O que eu converso, e muito com meu pessoal, é que a base teórica, ou seja, não empírica, é como se fosse um turbo para a aquisição de novos conhecimentos, capacidade e preparo para o que vem de novo.
    O conhecimento empírico é sim muito importante e contribui muito para quem chega na parte da ambientação pois, geralmente, quem está com este enraizado são os mantenedores mais experientes. Entram aí duas questões que tu pontuaste muito bem, a cultura neste lugar e o perfil do líder.
    Eu sei que o pessoal mais velho está em uma zona de conforto onde buscar um curso é complicado tanto pela vontade quanto pela capacidade de aprendizado, então cabe a nós líderes, deixar a pessoa posicionada. Se ele for uma pessoa que tem um relacionamento bom e compartilha o conhecimento com todos que chegam ok, tem um lugar dentro da estrutura. Mas se for do jeito que o colega Alessandro, pessoa que acha que esconder o “segredo” do pessoal é o que garante estabilidade tem que dizer que, ou muda e ensina ou vamos ter que trocar, já que este pensamento é como se fosse uma doença.
    Avaliações dentro das manutenções são teoricamente simples se o líder domina as metodologias e tem um conhecimento técnico que permita avaliar, conversar e tratar as falhas no mesmo nível dos teus melhores.
    Neste lado técnico temos que ver se o cara tem conhecimento, sabe aplicar na prática, tem relacionamento e postura adequados e éticos, é a cereja no bolo, é se ele ENSINA.
    No meu ponto de vista duas pessoas conseguem sim ter um mesmo conhecimento de algo. Só que adquirir este conhecimento sem base teórica, com certeza leva muito mais tempo, e hoje não temos tempo para perder.
    Mas acho que ainda temos lugar para os práticos, desde que estes tenham o papel de professores.

    • Paulo Walter
      Paulo Walter

      Marcelo muito obrigado por seu excelente comentário. Suas colocações são perfeitas. Principalmente no mundo dos ativos reais, onde acontece a produção de verdade de tudo aquilo que consumimos, usamos e comemos, a mescla de experiencias é que faz o sucesso acontecer. As novas tecnologias são nem vindas e as mudanças são inexoráveis.
      Mas ter o histórico, a vivencia como parte do acervo humano é fundamental para surfar as ondas que varrem nosso trabalho todos os dias.

  4. William Oliveira

    Muito boa a abordagem. Já tive a chance de trabalhar simultaneamente com dois gestores de manutenção, sendo um empírico ao extremo, e o outro um profissional com larga experiência em Gestão de Manutenção, apegado a Indicadores de desempenho, de custos, Budget, Planejamento, um profissional invejável. Acredito que o tempo se encarregará de fazer a “seleção natural” desses profissionais, quem conseguir aliar experiência(know how) com conhecimento técnico(know why) certamente vai se sobressair.

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