AMOSTRAGEM

14/09/2009
Por

Um processo sensível e crítico na avaliação do lubrificante

Por Antonio Traverso Júnior

Quando a engenharia de manutenção de uma empresa se propõe a implantar um programa de acompanhamento da condição de equipamentos, através dos lubrificantes em uso, pensa usualmente em primeirizar a atividade de análise do lubrificante com a aquisição de vários equipamentos com seus respectivos hardwares para compor o aparato analítico de um laboratório próprio, ou terceirizar identificando um laboratório idôneo para executar as análises das amostras de óleo. Há ainda aquelas equipes de manutenção que propõem um modelo intermediário, isto é, realizar algumas análises internamente e outras mais complexas e menos freqüentes em laboratórios externos.
Todas essas soluções são válidas e todas têm um “mensageiro” em comum, que é a amostra do lubrificante. A amostra é o “veículo da informação” vital a um programa de acompanhamento de lubrificantes em uso. Esse veículo de informação tem a função de conduzir a informação da condição do equipamento e do próprio óleo até o laboratório que vai realizar as análises, assim como o respectivo diagnóstico.
A amostragem do lubrificante usualmente é subavaliada e pouco analisada do ponto de vista da sua consistência e representatividade. Quando isso ocorre, ou se introduz um problema inexistente pela contaminação da amostra, ou se perde um problema real no equipamento por não se conseguir uma amostra completa. Em resumo: um processo de amostragem quando é inconsistente, conduz a uma fragilidade no fluxo de informação e trabalho útil representado ao lado.
A amostragem consistente e significativa do lubrificante é a parte mais importante do processo de transmissão da informação do equipamento para o gestor da manutenção. Dessa forma para se obterem amostras de qualidade para a implantação e o desenvolvimento de um programa de monitoramento de equipamento, exige-se a observação de diversas técnicas e aspectos como as que se seguem.

A limpeza do frasco – A grande maioria dos frascos para amostra disponibilizados pelos laboratórios não tem o seu nível de limpeza controlado, fazendo com que as amostras retiradas contenham contaminantes inexistentes no equipamento, o que possibilita diagnósticos equivocados. Para a eliminação do viés da contaminação nos frascos, faz-se necessário tê-los em três classes:

LIMPOS – frascos com 10 a 100
partículas de 10 microns
SUPER LIMPOS – frascos com 1 a 10
partículas de 10 microns
ULTRA LIMPOS – frascos com 0,1 a 1
partícula de10 microns

Os frascos super limpos são suficientes para a monitoração de bombas e motores hidráulicos, e os frascos ultra-limpos, para a monitoração de servo válvulas, são os mais apropriados. Quando o nível de contaminação a ser monitorado é menos rigoroso que os níveis necessários aos óleos hidráulicos, isto é, um nível 19/17/14 referência em redutores industriais, poderemos utilizar frascos limpos.
A regra prática para a limpeza adequada de um frasco para amostra diz que a contaminação do frasco não deve exceder de 1% da contaminação esperada no equipamento/parte a ser monitorada. Para exemplificar, se precisarmos monitorar um sistema de servo válvulas que requeira um nível de controle de limpeza do lubrificante de 15/13/10 considerando a norma ISO 4406, precisaremos de um frasco ultra-limpo. Cabe lembrar que a condição de limpeza de um frasco é perdida imediatamente quando ele é destampado prematuramente e/ou não utilizado imediatamente em condição protegida.
Fazer economia em frascos para amostras de lubrificantes é fazer economia de palitos e colocar em risco a eficácia de um programa preditivo que pode trazer economias significativas nos custos de manutenção e nas receitas de produção.
O volume das amostras – Igualmente importante é estimar o volume de amostra necessário. De nada adianta uma amostra pequena que não possibilite a realização de todas as análises necessárias e significativas.
O volume de ar no frasco – Para a homogeneização da amostra, quando do momento da realização efetiva das diversas análises de interesse no laboratório, faz-se necessário agitar vigorosamente a amostra no frasco. Para que a homogeneização seja eficaz, é necessário que haja um volume de ar dentro do frasco que corresponda ao menos a um quinto do seu volume bruto. Quando esse volume de ar não é preservado, dificilmente a amostra de óleo extraída do frasco corresponderá à amostra que foi retirada do equipamento, fazendo com que uma parcela útil de informação sobre o próprio óleo em uso e sobre o equipamento seja perdida ou subutilizada.

O método de amostragem – A eliminação da subjetividade na amostragem do lubrificante só é obtida com a execução da amostragem numa seqüência correta em que o passo a passo seja rápido, seguro e higiênico. Tomemos como exemplo a monitoração de um equipamento que tenha grande sensibilidade à sílica e a outros óxidos duros: caso, durante a monitoração, as condições de higiene e seqüenciamento não forem observadas, incorremos no sério risco de, após os testes, detetarmos problemas inexistentes. Basta para isso a tampa ou o batoque do frasco de amostragem cair no chão e o mecânico que estiver realizando a amostragem se apressar em reutilizá-los na finalização da citada amostragem.
A eliminação desse tipo de vulnerabilidade só pode ser obtida com a utilização de procedimentos de amostragem claros e precisos, fazendo com que todas as etapas envolvidas no processo de amostragem sejam controladas e precisas. Em coleta de amostra de lubrificante, qualquer consumível que caia no chão não deve ser reutilizado, pelo menos naquele momento.
Os pontos de amostragem – A correta seleção e escolha dos pontos de amostragem determinam em grande medida a eficácia de um programa de monitoração de equipamentos através do lubrificante. Fazendo uma analogia com o sangue, podemos dizer que sempre devemos colher amostras em veias e nunca em artérias, a não ser que tenhamos objetivos específicos como verificar a eficiência e a atividade de filtros. Nas máquinas precisamos das amostras onde há densidade de informação, isto é, onde o óleo é “venoso”. Temos basicamente dois tipos de pontos possíveis nos equipamentos: são os pontos primários e os pontos secundários, os quais escolheremos em função da especificidade e/ou histórico de cada equipamento.

O ponto primário – Se temos um equipamento novo ou um equipamento com bom histórico de confiabilidade e estabilidade operacional, esse é o equipamento que tem aptidão para o ponto primário, isto é, um ponto generalista que aponta para a condição geral do equipamento. Um ótimo local para esse ponto é uma tubulação ou manifold de retorno de lubrificante.

O ponto secundário – Quando temos equipamentos mais complexos trabalhando em condições severas e ambientes hostis e/ou equipamentos com históricos de falhas e de indisponibilidade, esses necessitam de pontos de diagnóstico visando à identificação precisa dos elementos e partes em que os “problemas” começam, crescem e aparecem.

Há situações em que a conjugação de uso de ponto(s) primário e secundário é necessária por oferecer flexibilidade à otimização de um programa preditivo de equipamentos através de lubrificantes. Em resumo: A utilização desses dois tipos de pontos permite-nos chegar perto ou nos afastarmos de pontos potenciais de problemas em um equipamento, de acordo com a situação e/ou conveniência. Em turbo máquinas esse conceito é particularmente importante para os mancais.

A velocidade do envio e da execução das análises — A informação contida dentro da amostra, na forma de contaminantes sólidos ou de produtos de reação do lubrificante, também está sujeita à força da gravidade, de modo que a sedimentação da informação é líquida e certa. Para evitarmos que está informação se perca e/ou se modifique, é importantíssimo enviarmos as amostras ao laboratório o mais rapidamente possível. Não é desnecessário dizer que uma amostra enviada para análise trinta dias depois de retirada do equipamento praticamente não tem mais valor, sem falar que nesse meio tempo o equipamento já pode ter, inclusive, falhado.

A identificação do equipamento – A etiqueta da amostra deve conter todas as informações relevantes e pertinentes sobre o equipamento e sobre a amostra em si. Por exemplo, no campo de observações da amostra deve ser informado se o equipamento recebeu uma carga adicional de lubrificante após o envio da última amostra e, se recebeu, qual foi a quantidade, ou ainda, se o equipamento sofreu alguma intervenção e de que tipo foi: troca de rolamento, trocas de válvulas, trabalho a quente em reservatório etc. Todas as informações solicitadas nas etiquetas devem ser fornecidas, isto é, todos os campos devem ser preenchidos. Esse procedimento propicia uma maior consistência nos diagnósticos e prognósticos dos equipamentos monitorados. Qualquer omissão de informação, ao longo do tempo, pode ser a diferença entre a continuidade operacional ou a falha catastrófica do equipamento.

A inspeção visual das amostras — Muitas vezes, antes de se enviar as amostras para o laboratório, uma simples inspeção visual pode eliminar a demanda em até 60%, isto é, um diagnóstico do estado do equipamento pode ser obtido imediatamente dispensando a utilização do laboratório. Isto é particularmente importante para equipamentos em que os respectivos históricos já são de conhecimento da equipe de manutenção. A detecção de água livre, bactérias e limalhas são facilmente controladas com a inspeção visual.

Conclusão — Dedicar atenção à amostragem do lubrificante nos seus diversos aspectos é uma etapa essencial para se conseguirem excelentes resultados em um programa de acompanhamento da condição de equipamentos através dos lubrificantes em uso, visando ao aprimoramento de uma manutenção focada em resultados, confiabilidade e, porque não dizer, em sustentabilidade.

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