O ÓLEO QUE VEM DO GÁS
GTL (Gas-To-Liquid), um grande desafio econômico e logístico
Por: Pedro Nelson Abicalil Belmiro
Obter combustível líquido a partir de gás não é nenhuma novidade, nem um grande avanço tecnológico do século XXI, já que, desde 1923, os cientistas alemães Franz Fischer e Hans Tropsch descobriram que se pode converter em líquido um gás formado de Monóxido de Carbono (CO) e Hidrogênio (H), chamado de “gás de síntese”, em presença de catalisador, configurando o chamado processo Fischer-Tropsch. Porém, utilizar esse processo com vantagens econômicas e viabilidade comercial ainda é um grande desafio para a Indústria e os pesquisadores.
Uma vez que o processo se baseia na transformação do gás de síntese, a fonte desse gás pode variar desde o Gás Natural fartamente encontrado em diversos países, até a biomassa de diversas procedências, passando pelo Carvão que foi, na verdade, a origem de tudo. Para o processo utilizando biomassa, adota-se o termo BTL (Biomass To Liquid), assim como para o uso do Carvão fala-se em CTL (Coal To Liquid). De todas as formas, a base do processo é estabelecida em três etapas distintas. A primeira é a obtenção do Gás de Síntese (CO + H2), com a quebra das moléculas do Metano (CH4). A segunda é a Síntese das parafinas lineares formadas através de atividade catalítica que vai construindo as cadeias de Carbono desejadas. A terceira etapa do processo concentra-se na melhoria dos produtos formados, através de hidroisomerização catalítica.
Além das novas tecnologias em catálise com Cobalto e Ferro, outros fatores foram extremamente importantes para a viabilização econômica da tecnologia GTL, tais como a disparada do preço do Petróleo, as novas descobertas de reservas mundiais de Gás Natural e as restrições cada vez mais severas das legislações ambientais.
Fatores favoráveis
As legislações ambientais dos países estão ficando cada vez mais restritivas e exigindo um nível de emissões veiculares tão pequeno, que dificilmente poderá ser atingido só com o desenvolvimento dos motores. Os combustíveis e lubrificantes tornaram-se extremamente importantes nesse processo de redução da poluição. Já é fato que as especificações mais recentes de lubrificantes para atender estes requisitos de emissões, já em vigor na Europa e Estados Unidos, não são atingidas com óleos básicos de grupo I, minerais de mais baixo grau de refino. Diante disso, os lubrificantes formulados com óleos básicos de grupos II e III e também as Polialfaolefinas, que na maioria das vezes compõem os chamados óleos sintéticos, passaram a contribuir significativamente para o atendimento dos mais modernos requisitos de qualidade. Devido a isso, a capacidade produtiva mundial não tem conseguido atender à demanda crescente por básicos de alta qualidade.
Com relação à qualidade, já sabemos que os óleos básicos obtidos pelo processo GTL são totalmente isentos de elementos nocivos como o Enxofre, Nitrogênio e compostos aromáticos. Além disso, são completamente saturados e possuem baixa volatilidade, o que os torna extremamente atraentes para as modernas formulações.
Espera-se ainda que esse óleo básico possa ser colocado no mercado a um preço menor que as Polialfaolefinas, mas acima dos básicos de grupo III. Isso trará ao Gás Natural uma utilização de alto valor agregado.
Principais desafios
Existem, no entanto, grandes desafios a serem vencidos para que o óleo lubrificante que vem do gás esteja comercialmente disponível em quantidade suficiente para atender à demanda existente. A primeira delas é a crescente utilização direta do Gás Natural como combustível, o que confere um valor mais nobre do que simplesmente a queima, que era e ainda é o caminho desse produto na maioria das vezes, em algumas regiões. Essa utilização pode colocar o lubrificante em segundo plano, uma vez que a busca por energia se torna prioritária.
As plantas de GTL deverão se localizar provavelmente junto às fontes supridoras, e conseqüentemente afastadas dos principais mercados consumidores. Com isso, os problemas relativos à logística de distribuição serão grandes e podem onerar o produto final além do esperado.
Com relação às aprovações e certificações dos lubrificantes formulados com GTL, serão necessários inúmeros testes de motores e de campo para assegurar o desempenho e compatibilidade requeridos. Aqueles que desenvolvem tecnologia em lubrificantes vão precisar investir grande recurso financeiro, para assegurar que esses novos básicos possam ser comercializados sem qualquer perda das aprovações já obtidas junto aos órgãos competentes, tanto americanos como europeus, e também junto aos fabricantes de motores.
O que se pode esperar, no entanto, é que, devido à alta qualidade dos básicos obtidos com a tecnologia GTL, os formuladores poderão se beneficiar, não necessitando de aditivos de alto desempenho, com isso proporcionando uma redução do custo final da formulação.
Os projetos mundiais
Os últimos dois anos foram tempos de muitos desafios para a indústria GTL. Muitos projetos de alto nível foram engavetados. Grandes companhias petroleiras como a ExxonMobil e Chevron, que tinham acordos com o governo do Qatar, o terceiro maior produtor de Gás Natural do mundo, desistiram dos projetos para produção de lubrificantes, deixando para a Shell o único projeto que ainda está em curso com a Qatar Petroleum, e que prevê prioridade para a produção de combustíveis, principalmente óleo Diesel.
A escalada de preços também provocou um aumento significativo dos custos e da complexidade de implantação de uma fábrica de lubrificantes a partir do Gás Natural. Esse fator, aliado a outras opções de monetização das reservas de Gás do Qatar, foi um dos motivos para mudanças nos horizontes do universo GTL. Projetos como os da refinaria de Oryx (Sasol-Chevron), que poderiam produzir mais de 1 milhão de litros de óleo básico por dia, foram simplesmente adiados sem data marcada. Juntando-se a isso a desistência da ExxonMobil de seu projeto para produzir mais de 4,5 milhões de litros por dia em 2011, restou o projeto da refinaria de Pearl (Shell), que após um investimento adicional de 18 milhões de dólares irá tornar-se a maior produtora de combustíveis GTL do mundo, mas sem prioridade ou previsão para a produção de lubrificantes.
Com as incertezas rondando o futuro dos lubrificantes produzidos com tecnologia GTL e a crescente demanda por básicos de qualidade superior no mundo todo, espera-se que novas plantas produtoras de óleos básicos de grupo II e III venham ocupar esse espaço.
Não há dúvidas quanto à necessidade de se abastecer o mercado mundial com básicos de qualidade superior, porém é provável que ainda teremos que esperar uns dois ou três anos para que essa situação comece a se equacionar de forma mais clara.
Obter óleo lubrificante a partir do gás não é mais nenhum mistério, mas torná-lo economicamente viável e disponível ao mercado mundial ainda é um grande desafio!
Pedro Nelson Abicalil Belmiro é engenheiro químico, consultor técnico em lubrificantes e coordenador de lubrificantes do IBP.








