PARA REFLETIR: O MÁGICO, O CONSULTOR E OS PROJETOS.
Mais um ano termina e a rotina não muda: promessas (exercícios, dieta, parar de fumar, voltar a estudar), novos objetivos pessoais e profissionais, justificativas, festas, comemorações, churrascos, previsões otimistas (sempre), encontros e desencontros.
Lembro-me de uma empresa que tentou o ano inteiro reduzir seus custos, melhorar a produtividade e a qualidade, mas que em todas as tentativas feitas jamais conseguiu dar um passo em direção aos objetivos determinados. Faltou comprometimento, iniciativa, liderança, participação e ousadia.
No final do ano, para manter a tradição, realizaram uma grande festa de confraternização e comemoração, apesar de não ter ficado claro o motivo da comemoração, pois os resultados tinham sido ruins, o processo continuava com perdas significativas, os equipamentos com baixo OEE e os Colaboradores sem receber qualquer treinamento, justificado sempre pela fase negativa da empresa e a necessidade de redução de custo.
Durante a festa, os Colaboradores estavam bastante alegres e receberam o reforço de um Mágico, contratado para a comemoração. Ele era muito bom e sumiu com relógios, moedas, pombos e outros objetos pessoais pedidos aos participantes que assistiam atentos procurando descobrir o truque, mas sem sucesso. Os mais ousados e desinibidos chegaram a pedir que sumisse com alguns Chefes e colegas de trabalho, aumentando a descontração e provocando uma grande salva de palmas com acessos de risadas.
Convidaram também um Consultor para apresentar o Plano Estratégico para o ano seguinte, com objetivos numéricos, planos de treinamento e indicadores operacionais para melhorar os resultados do ano em curso e tornar a empresa mais competitiva no ano a se iniciar. Coube a ele a árdua tarefa de apresentar o plano logo após a alegria causada pelo Mágico e no meio de uma festa. Que falta de sensibilidade da empresa!
No início da apresentação, alguns sugeriram ao Consultor contratar o Mágico para ajudar no desenvolvimento do projeto e fazer aparecer indicadores positivos, melhorar a produtividade, a qualidade, aumentar a eficiência global dos equipamentos – OEE e a qualificação dos Colaboradores, tudo com um passe de mágica igual ao que fazia para sumir com os objetos.
O Consultor meio sem jeito tentou explicar que o Mágico não conseguiria sucesso se resolvesse atuar no processo apenas com seus truques e que ele não sabia fazer mágica, portanto, os resultados só seriam visíveis se houvesse esforço, dedicação, comprometimento, participação, ousadia, organização, disciplina, planejamento, liderança e reconhecimento. Para melhorar os resultados operacionais, infelizmente, ainda não tinham inventado uma cartola ou bola de cristal que funcionasse.
Naturalmente que todos reclamaram, pois queriam atingir os resultados sem nenhum esforço extra, como num passe de mágica.
O Diretor da empresa, encerrando a festa, com a sua verve conhecida, fez o discurso de praxe, convocando os funcionários a vestirem a mesma camisa no próximo ano para superarem juntos os desafios, melhorando a produtividade e qualidade, pedindo mais empenho, dedicação e que contava com o apoio incondicional de todos. Bla, bla, bla, bla,…
Depois da salva de palmas para o Diretor, completando o ritual, assim que ficou mais silencioso o ambiente, consegui ouvir alguns comentários de Colaboradores que estavam próximos e falavam baixo:
- Ele nunca nos deu apoio, não aparece na produção, não cumprimenta as pessoas, parece que vive em outro mundo, nunca está disponível. Só sabe cobrar resultados!
- É mesmo. Eu trabalho no turno da noite ha dois anos e ele nunca apareceu, não sabe nem o nome do Supervisor e ainda pede apoio pra gente. Parece que o terceiro turno não existe na empresa, ficamos isolados e temos que nos virar sozinhos.
- O mais exaltado completou: Concordo com vocês! No meio do ano cortaram todos os treinamentos por redução de custos e logo depois ele apareceu com aquela camionete importada, zerinho, que deve ter custado duas vezes o orçamento anual da área de treinamento. Só pensa nele e no final do ano vem nos pedir para vestir a camisa da empresa para que ele lucre mais.
O Consultor que se encontrava ao meu lado e também escutou, comentou que se o Diretor agisse assim como o grupo falou, seria muito difícil fazer as mudanças e atingir as metas porque seus Gerentes se espelhariam nele e agiriam da mesma forma. As mudanças nas empresas só acontecem de cima para baixo, na maioria das vezes.
É necessário que a Alta Gerência dê o exemplo, que participe apoiando, reconhecendo o empenho dos Colaboradores, investindo no potencial humano e participando mais.
Fazendo uma reflexão sobre esse discurso, a atuação do Mágico e o comentário do Consultor, conclui não ser raro encontrar nas empresas, em todos os níveis, os seguintes personagens, dentre outros:
1. Aquele que adota o projeto imediatamente e de forma bem otimista faz um discurso maravilhoso, depois é o primeiro a resistir ou seguir sozinho por caminhos diferentes. Não desenvolve as atividades, não cumpre os prazos, não concorda com nada e ainda influencia negativamente os outros participantes. Cuidado com a aceitação rápida desse tipo!
2. O desconfiado que desde o início vive criando obstáculos às mudanças, justifica ser inapropriada à cultura da empresa para implantar o projeto, alega falta de tempo e de pessoal e acaba não participando. Esse tipo não agrega nada e sempre que é convocado para alguma atividade envia um representante ou justifica a ausência por ter surgido um imprevisto.
3. O lento, desorganizado e sem iniciativa. Apesar de ter potencial reconhecido por todos, não consegue desenvolver qualquer atividade do projeto por falta de tempo, planejamento, organização e liderança. Esse precisa de apoio e incentivo para trabalhar em grupo.
4. Tem também o esperto que nunca diz não, apresenta cronogramas em planilhas complexas e as atividades concluídas totalmente diferentes do que o projeto exige apenas para dizer que fez alguma coisa. Esse não tem convicção se o que fez está correto e sempre que é questionado, diz que está em fase de mudança, de melhoria e que apresentou apenas para receber as críticas construtivas, mudando a opinião rapidamente só para agradar. Muitas vezes assume compromissos, determina datas e quando apresenta seu trabalho, continua no mesmo ponto inicial, sem evolução. Esse precisa ser mais cobrado e ter seu desempenho avaliado criteriosamente porque prejudica o projeto.
5. O preguiçoso que quer sempre o trabalho pronto, não gosta de ler, de escrever, de planejar e trabalha apenas por tarefa. Não consegue analisar o projeto de forma global e tem sempre uma justificativa para as atividades não realizadas. Precisa ser acordado!
6. Existe também aquele que possui poder hierárquico, se autodenomina prático, dinâmico e quer resultados imediatos. Só sabe cobrar, nunca participa de nenhuma discussão, sempre está ocupado com o trabalho e jamais apresenta qualquer plano de ação. Cuidado para não aceitar qualquer sugestão e mudar o conceito do projeto só porque ele “mandou”.
7. Não podemos esquecer o “Entusiasmado” que vibra com tudo, elogia a todos, colabora sempre, mas não tem muito conhecimento. É pura empolgação e precisa ser vigiado para não desenvolver atividades desnecessárias. Uma pessoa sem conhecimento com iniciativa é muito perigosa! Cuidado!
Naturalmente que outros personagens serão lembrados, mas os citados acima estão presentes com muita frequência e segundo o relato do Consultor, não existe mágica que possa mudar facilmente essas características, muito menos desaparecer com elas, portanto, devem ser identificadas e analisadas imediatamente para definir a melhor estratégia que facilite o andamento do projeto para que exista Trabalho em Grupo, que some os esforços e atinja os resultados esperados.
Para dirimir qualquer dúvida sobre o significado de Mágico, Consultor, Colaborador e Empregado segue abaixo uma descrição tirada do dicionário Michaelis, na esperança de que não se confundam as funções:
ü O Prestidigitador ou Ilusionista é a pessoa que, pela rapidez dos movimentos das mãos, é capaz de provocar ilusões tais como tirar objetos do ar, de uma cartola ou caixa vazia ou de fazer desaparecê-los sem que se perceba como.
ü O Mágico é a pessoa que pertence ou se refere à magia, ou com a natureza da magia, dos feitiços e bruxarias. Dotado de poder sobrenatural. Encantador, extraordinário, sobrenatural. Indivíduo que sabe e pratica a magia; bruxo. Artista de espetáculos de mágica; prestidigitador; ilusionista.
ü Consultor é aquele que dá conselhos ou emite parecer sobre determinado assunto de sua especialidade. Aquele que consulta, analisando cuidadosamente.
ü Colaborador é a pessoa que colabora. Cooperador. Pessoa que, sem pertencer ao quadro de funcionários de uma empresa, trabalha para ela habitualmente ou esporadicamente.
ü Empregado é aquele que presta serviços mediante salário.
Evidente que existirão questionamentos e dúvidas, inclusive exigências desmesuradas à consultoria e aos Colaboradores para atingir resultados rápidos, mas um projeto só conseguirá bons resultados com muita dedicação, disciplina e comprometimento, sem passes de mágica e com o esforço de todos.
Pensem nisso e planejem seus objetivos para o próximo ano, sem mágicas, por favor.
Obviamente que existirão ciúmes, competições internas, resistências, dificuldades e obstáculos, mas nada disso poderá ser mais forte que um grupo trabalhando em conjunto, com uma coordenação geral atuante, que sabe liderar com autoridade e sem autoritarismo, que incentive a todos, com visão global do projeto para evitar atividades realizadas individualmente que não agreguem nada ao andamento do trabalho, que não faça comentários pessoais e depreciativos causadores de desunião, que seja aceito e respeitado pela Alta Gerência, que tenha alegria e muito entusiasmo para criar um ambiente bom de trabalho.
Tem um provérbio africano que diz:
“Se quiser ir rápido, vá sozinho.
Se quiser ir longe, vá em grupo”.
Algumas premissas fundamentais devem ser discutidas antes de se iniciar um projeto, como por exemplo:
1.. Analisem muito bem os conceitos e objetivos dos projetos para o próximo ano;
2.. Escolham criteriosamente os Colaboradores de acordo com as melhores características individuais para que consigam somar esforços no projeto e trabalhem em grupo. Essa escolha reduzirá os desgastes e resistências;
3.. Definam os objetivos, mensurando numericamente, com prazos fixados e um responsável para cada projeto;
4.. Gastem o maior tempo possível planejando, definindo a estrutura matricial e discutindo conceitos, a metodologia e divisão do trabalho para que os resultados sejam ótimos;
5.. Escolham um Coordenador entusiasmado, profissional, respeitado, que se dedique, seja organizado, ousado e que conheça a metodologia, não permitindo grandes desvios de rota;
6.. Elaborem cronogramas, calendários de reuniões, períodos de avaliação e medição dos indicadores;
Se tudo correr bem, contratem com antecedência o Mágico para a comemoração do final do ano, agora sim, com motivos mais do que justos para confraternizar.
E não se esqueçam de contratar um Consultor
para orientar de forma isenta o andamento do projeto,
sem mágica, por favor!
Boa sorte e bons projetos para todos!
Marcio Cotrim
Sócio-Gerente da MC CONSULTORES LTDA, Coordenador Regional no RJ do COPIMAN – Comitê Panamericano de Ingeniería de Mantenimiento, Engenheiro Mecânico, Físico e Pós - Graduado em Engenharia de Segurança. Mais de 30 anos de experiência profissional como Gerente de Manutenção e Engenharia de Projetos em grandes empresas como Westinghouse, Gillette do Brasil, Atlantic de Petróleo, Laboratórios B.Braun e Cruzeiro do Sul.
Recebeu o Prêmio “Westinghouse Signature Award for Manufacturing Excellence” em 1983.
Como Consultor desde 1993, implantou diversos projetos nas áreas de Manutenção Industrial e Programas de TPM em grandes empresas como Honda, Recofarma (Coca-Cola), Abbott, Glaxo Wellcome, SmithKline Beecham, Multibrás, Metalfino, RJR Refrescos, WEG Motores, Jornal do Brasil, Cisper, Rimisa e ministrou mais de 80 seminários de TPM com mais de 2700 pessoas treinadas no Brasil e exterior.









