oferecimento
Esqueci minha senha

Crônicas do Chão de Fabrica

cronicas

 

Sobre Farois, chocolates e lagostas.

- 23/06/2009

A primeira viagem de trator a gente nunca esquece. Pela areia da praia, nove quilometros para leste, saíramos por volta das sete da manha de Touros, no Rio Grande do Norte, rumo ao farol que levava o nome da Cidade. Éramos 11 pessoas a bordo aboletados naquela imensa máquina, passeando por uma paisagem exuberante. Areia e mar e céu. Um dia lindo para não esquecer nunca.

O programa incluia ir ao farol, que era (ainda deve ser) o mais próximo da África situado em território brasileiro na parte continental. Um farol, uma referencia, um guia, um marco. Depois Carnaúba, mais cinco quilometros depois do farol, uma aldeia de pescadores para conhecer como viviam as pessoas, no fim do século XX, sem água encanada, escola, energia elétrica, Shopping Center, disk pizza nem telefone para chamar um disk pizza. Só o que o mar pudesse oferecer.  

Aquela viagem de um dia era um luxo. A única forma de ir ao Farol era de trator e pela areia da praia e para Carnaúba idem. A entourage era composta de seis adultos (incluindo o motorista), eu de adolescente, meus dois irmãos e 2 primos de contra-peso.  Água, rádio comunicador (da prefeitura) e óleo de bronzear (na época não haviam inventado protetor solar), era tudo o que levávamos.

Ah, sim, me esqueci. Tinha o chocolate. Para dar como sinal de amizade ao pessoal da aldeia. Num lugar ermo como aquele chocolate era algo absolutamente fora do comum. E chocolate agrada qualquer um em qualquer lugar do mundo.

O ponto alto do passeio era visitar o Farol. Oportunidade única, algo histórico. Pra colocar na lista dos grandes eventos de uma vida que acabara de completar quinze anos. O almoço na aldeia era um bônus. Podia acontecer ou não. O que eu não sabia é que Carnaúba tinha muito a me oferecer.

Um Farol é um Farol. Alto, solitário, listrado, soberbo em sua missão de iluminar noites, mostrar caminhos, aparecer nos mapas e guardar marcações.

Já Carnaúba era árida. Uma choupana aqui, outras acolá. Taipa, areia, e mais nada. A pobreza seca do litoral nordestino de então. As pessoas curtidas de um sol de sempre, sempre. Com a marca impressionante da falta dos dentes da frente, todos nos sorriam com a curiosidade de ver essa gente estranha que vinha em visita sem avisar (de que jeito?).

Meu pai me dera a missão de cuidar do chocolate. Achei aquilo um saco (literalmente!) pois com o sol, como aquilo não iria derreter? Depois entendi o porquê de minha responsabilidade. Meu pai entendia dessas coisas de dar missões e criar o momento. Fora dele a idéia do chocolate. Por ser o “carregador” das barrinhas, ganhara o direito de estar presente no “cerimonial” de boas vindas com o líder de Carnaúba, restrito ao meu pai, meu tio Edvaldo e o cunhado dele, vereador da cidade que arrumara o trator.  

Pobreza e analfabetismo não isentam as pessoas de serem gentis e acolhedoras. Não lembro o nome do homem, mas aquele pescador, de mãos calejadas, unhas sofridas, pela amarrotada e muita simpatia, mostrou seu melhor sorriso e agradeceu pela visita e pelos chocolates. Nessa ordem. Abriu os braços, mostrou a paisagem e disse duas frases que nunca mais esqueci: – Queremos muito que fiquem conosco, conheçam nosso trabalho, nossa forma de viver e almocem conosco. Mas lamento dizer que só temos lagosta para lhes servir e nada mais.

Naquele dia tive várias primeiras vezes: andei de trator, conheci um Farol, andei de jangada, entendi porque nem todo mundo carrega o chocolate e experimentei o que era a tal da lagosta.

Mas o grande aprendizado, que um dia valeria uma crônica, é que às vezes não sabemos que o que temos para servir é muito mais do que nos pedem ou esperam de nós. E dar de si antes de pensar em si, pode fazer diferença por toda uma vida.

Essa crônica é uma homenagem a Tia Margarida, a mais linda flor de Carnaúba que conheci em minha vida.

Paulo Walter 

Publicado por: cronicas

1 Comentário


  1. Luciane

    Olá PW, adorei o texto seria ótimo se as pessoas aprendessem um pouco do que é oferer o que se tem aos outros e partilhar o mais bonito da vida que é servir e acolher bem as pessoas.
    Abraços.