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Crônicas do Chão de Fabrica

cronicas

 

O futuro e as reflexões de Zé Bode e Maynard Keynes

- 27/07/2010

José de Ribamar era o Zé Bode. O mecanico mais antigo da equipe de manutenção. Bom profissional, desconhecia o que vem ser metrologia, mas se dava bem com as polegadas – as medidas de seus polegares, com que escolhia (e acertava) todas as chaves, parafusos, peças e tipos de ferramentas que manuseava em seu trabalho.

Consertador dos bons, sem ter frequentado escola alguma nem antes nem depois, o Zé tinha uma memória de boi e não de bode, como pode sugerir seu codinome. Sabia de cor todos os defeitos e falhas que as 68 máquinas da produção podiam ter. Naqueles idos tempos, o nosso herói tinha o respeito dos operadores de tornos e fresas e madriladoras, pelo capricho e rapidez de seu trabalho, mas também pela seriedade de sempre. Dezoito anos, de ajudante de limpeza a mecanico, tinham feito dele um profissional exemplo de tantos outros zés que a fabrica tinha formado ao longo dos anos.

Um dia o futuro chegou para Zé Bode e para a fábrica toda. Uma nova máquina foi instalada para fazer, sozinha, o papel de 18 outras.  E como costuma acontecer nessas invasões alienigenas-tecnologicas, a tal maquina do além veio com mais cinco similares. Como nos filmes de ficção, a maquina robo era bonita e aterrorizante. Com suas pinças e ferramentas de operações multiplas, braços trocavam peças esculpidas, furadas e terminadas, em questão de segundos. Era zumpt, zimpt e zompt. Pronto.

A automação era o pesadelo do Zé e de outros, que como ele, tinham chegado aos seus limites de aprendizado. Como lidar com tal monstruosidade?

Quando a primeira máquina extraterrestre foi finalmente instalada, teve inauguração com direito a discurso. O Diretor subiu num banquinho e anunciou que nada mais seria como antes e que todos estavam convidados a aproveitar os avanços que aquela belesura iria trazer para a empresa.

Meu amigo Bode, observando todo o movimento, degustando seu croquete de camarão com suco de maracujá, me brindou com uma frase de orelha de livro de auto-ajuda:

– A merda é que o futuro não avisa quando vai chegar.

Fiquei ali um tempo parado, olhando o show da tecnologia que usinava carcaças de bombas e, de quebra, os meus pensamentos. E cheguei a conclusão que o sábio mecanico tinha razão. Não sei porque, me lembrei de imediato de uma frase atribuida a John Maynard Keynes, conceituado escritor e filosofo: “No longo prazo estaremos todos mortos”.

Quando voltei para minha sala, pois trabalhar era preciso, abri a agenda e escrevi: – O futuro não vai me pegar. Quando ele chegar, vou estar em outro lugar.

Pois é. O tempo passou e continuo firme em minhas convicções. Entre Keynes e Zé Bode, creio eu –  que não faço questão de tomar partido num assunto desta natureza, o melhor a fazer é continuar no presente. Dá menos complicação.

Paulo Walter

Publicado por: cronicas

3 Comentários


  1. Milton Zen

    Caro Paulo,

    é o que sempre digo.

    ” O segredo do sucesso não é adivinhar o futuro, mas sim estar preparado para um futuro incerto. Melhor será se puder criá-lo.” MAGZEN

  2. Maria Julia

    Caro Paulo, nem tanto ao bode e nem tanto a Keynes. Cito Leonardo Boff que nos fala sobre o “presente perpétuo” em que estamos vivendo. Onde tudo acontece numa velocidade tão rápida que o passado, o presente e o futuro se confundem em um só momento. É a internet, os avanços tecnológicos, o homem em constante mudança. É a comunicação que flui, transformando a informação do segundo anterior em uma informação obsoleta.
    O futuro se constrói na decisão do momento presente.
    O Bode já sabia que o futuro sempre esteve ali e Keynes também.

  3. João Mario

    É não da para evitar. Ninguém poderá para-lo. O futuro é assim mesmo, ele chega e vai deixando todos (máquinas e seres humanos) obsoletos… O que podemos fazer é remediá-lo. Estudando, aprendendo, aperfeiçoando-nos para não ficarmos parados no tempo vendo ele prosseguir. Para aqueles que se sentem como o Zé Bode, a boa notícia é que a oportunidades de aprender estão abertas para todos.

    bom aprendizado!