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Crônicas do Chão de Fabrica

cronicas

 

Quem viu o Comandante Aramis?

- 20/08/2010

Reza a lenda de que em boca fechada, não entra mosca.
Uma certa vez, quando o navio atracou em Tubarão, na periferia de Vitória, no Espirito Santo, o Oficial Praticante (Pratica para os intimos da área) estava ansioso para saber qual a programação dos veteranos quando todos recebessem suas “diarias” atrasadas.

Naquela época não existia cartão de conta bancária nem essas modernidades de credito em conta para sacar no caixa automatico. O salario ia para a conta bancaria, mas o tutu das participações em serviços extras e diarias por viagem ao exterior era pago em “verdinhas”, cash, na porta do camarote do Imediato. Cada um recebia o seu, assinava o recibo e…

Eram tempos de iniciação na vida maritima e o aprendizado era veloz. Seguir os tripulantes mais antigos e experientes era uma boa medida, inclusive para a socialização ou integração ou o nome que se queira dar ao que se deve fazer para não ficar de fora da “turma”.

Com o bolso abastecido, a turma foi mesmo para onde podia ir, já que o navio zarpava para os EUA em 8 horas. Oito horinhas para fazer o que não poderiam por semanas, na grande tarefa de levar minerio de ferro para as siderurgicas americanas da costa leste.

Baixar terra! Quem estava de folga deu um jeito de entrar em algum dos taxis superlotados que em 40 minutos chegariam a Carapeba, um vilarejo que não passava de um amontoado de poucas casas, para onde a moral dos tempos de ditadura militar, no melhor conceito “limpeza, familia e tradição” tinha exilado as casas de conveniencia (puteiros) da capital do estado.

Anda pra cá, gira pra lá, nosso amigo, em seu estágio de marinheiro de primeirisssima viagem pelos bares de luz vermelha da vida, visitou do melhor ao pior dos estabelecimentos daquele bairro de comércio especializado.
Em quatro ou cinco horas de passeio, pode ver que a classificação dos “serviços” estava intimamente ligada ao escasso tempo que clientes e fornecedores tinham para realizar os trabalhos. Os preços também.

Depois de conhecer as oito ou dez ruas barrentas da localidade, já refazendo caminhos, eis que nosso  Pratica se depara com um cena cinematografica. Quatro pessoas falantes caminham em sua direção. As luzes tenues dos poucos e distanciados postes permitia apenas vislumbrar silhuetas. As tres mulheres riam muito, arrastando o homem que cambaleava seguro por duas delas. As garrafas de bebida nas mãos da que nao servia de muletas, mostravam que ainda iam longe com o combustivel de reposição bem guardado.

À medida que se aproximaram, o Pratica percebeu que tinha sido reconhecido. Ao se cruzarem, o homem aprumou o corpo – ou pelo menos tentou – e abraçando-se a uma das meninas, chamou pelo posto: – Fala aí Pratica. Se divertindo? O tempo é curto, ein. Aqui nessa área quem anda sozinho é porque tá perdido ou porque já gastou todo o seu dinheiro.    
Entre muitas risadas, o grupo festeiro foi em frente, numa linha quase reta.
Na neblina da madrugada, desapareceram levando os sons confusos de sua conversa alcoolicamente correta.
Pratica pensou com seus botões que o comandante Aramis estava muito bebado, mas, pelo menos, tinha pela primeira vez se dignado a lhe dirigir a palavra. Palavras meio truncadas, mas …

Horas depois, após manobra tranquila, navio já no curso e rumo ao norte,  o café da manhã foi servido no refeitório dos oficiais, no quinto convés. Apenas quarenta e cinco minutos depois do horário padrão, a farta refeição tinha a função adicional de recuperar aqueles bravos marujos que haviam, na noite anterior,  se dedicado com coragem e muita vontade a exercicios os mais variados.

Todos arrumados, bem passados, barbeados, como exigia o capitão mais chato e temido – e respeitado – de toda a frota mercante daquela empresa de navegação. Sentados e distribuidos nas mesas, conforme mandava a hierarquia, aguardavam o comandante. Sem ele presente não se tocava em nada.

Eis que surge a figura limpa, inteira, engomada e perfumada do comandante. Todos de pé e o coro do bom dia uníssono saudou o chefe.

A turma sentou e avançou sobre os pães, bolos e frutas. O comandante ao invés de sentar-se, como os demais famintos, circundou as mesas e foi ter com a turma do fundo, onde se juntavam os jovens oficiais praticantes. Passou por todos e, num gesto inusual, colocou a mão sobre os ombros do Pratica, herói da nossa história. Numa voz entre paternal e ironica, perguntou: – Pratica, por acaso voce me viu ontem, em algum lugar?

O refeitório parou. Silencio quase total. Escutava-se apenas o barulho do motor principal, oito pisos abaixo, que roncava seu labor de 12 cilindros para movimentar o hélice de cinco pás, empurrando aquelas duzentas e vinte mil toneladas de chapas de aço, máquinas, carga e água.

Naquela fração de segundo, entre pergunta e resposta, todos olharam para o Pratica em foco.
– Que eu me lembre, não vi o senhor ontem não. Aliás, comandante Aramis, nem sei se o senhor saiu de bordo.

O bem passado oficial deu uma gargalhada de nível superior, como só os altos escalões sabem dar. E olhando para todos os demais, que também riam muito, profetizou: – Esse rapaz tem futuro!

O Pratica tinha sido aceito e aprovado.

Paulo Walter

Publicado por: cronicas

1 Comentário


  1. Washington

    Deprimente.