oferecimento
Esqueci minha senha

Crônicas do Chão de Fabrica

cronicas

 

O ultimo dia ninguém esquece

- 15/01/2010

A noite veio negra e rápida demais. Pleno inverno, fim de Junho, naquela unidade industrial de Triagem, bairro no subúrbio do Rio de janeiro, a luz dos postes passava tênue entre as frondosas mangueiras e outras arvores imponentes. Em silencio, em duas viagens, foram baixadas caixas, livros, porta-retratos e outros restos do escritório esvaziado. Era hora de ir embora.

Dei uma olhada pela ultima vez para aquela imensa sala, com seus moveis antigos, bem talhados em madeira de lei.  Não buscava algum item esquecido na parede bege ou nas gavetas de puxadores bem talhados, mas sim as lembranças de dois anos intensos de trabalho. O som dos vestiários proximos invadia o ambiente. Ainda havia barulho de chuveiros e da peãozada conversando animada. Sorri, como sempre, ao escutar as risadas e alguns pedaços difusos de dialogos que podiam ser sobre o trabalho, a dureza do dia, a programação do dia seguinte, o futebol ou porque tinham mudado o chefão. Papo de vestiário é forma boa de medir o clima na empresa.

Memória de dois anos. Muito trabalho.  Diagnosticar os problemas, reorganizar, atrair talentos, esticar a estrutura, animar o povo e fazer funcionar um grande projeto sempre exige muita dedicação. E tinham sido muitas as vezes passando de 14 horas num mesmo dia, sem falar nos diversos fins de semanas consumidos inteiros.

O melhor de tudo era a equipe. As pessoas. As que já estavam lá e as que foram chegando. O ambiente e os resultados. Muito suor, mas recompensado.

Quando fui afastado da direção geral não acreditara no que me dizia aquele homem baixinho e franzino que atravessara o oceano para dar o inicio ao fim da joint-venture que granjeara respeito e bons números em tão pouco tempo. O problema não era operacional, nem comercial, era societário. Casamentos e sociedades são assim. Quando um não quer, os dois não ficam juntos.

Era hora de sair, abrir caminho e dar espaço para quem teria a missão de fechar a casa, e ir ao encontro do próximo projeto.

Mas a saída não fora tão fácil assim. Era quase uma demissão. Me afeiçoara a tudo aquilo e ao que um time de primeira linha é capaz de fazer. Para mim era – pelo menos deveria ser – época de colheita e não de encerramento. Daí a frustração e a tristeza do comandante ao deixar o barco, sem a despedida correta dos seus comandados.

Realocado, no caso, era o sinônimo no linguajar corporatives para afastado. Em uma multinacional, quando voce deixa de ser o Diretor Geral e vira Diretor de Desenvolvimento de Negócios, todo mundo sabe que você foi promovido pra baixo. De 1100 empregados diretos para uma equipe de 4 pessoas, os números expressavam o tamanho de cada função e a carga da missão.

– Falta alguma coisa?
A voz do Ronaldo as minhas costas, me fez retornar da viagem de segundos.

– Só a caixa azul com os livros e agendas antigas, falei sem tirar os olhos da grande janela que me permitia ver a Lua e sua luz desenhando os contornos dos galpões das oficinas adormecidas.

Descemos as longas escadas dos três andares em silencio. O vetusto e histórico prédio da administração, inaugurado na década de 1930 pelo presidente Getúlio Vargas, já devia ter sido palco de muitas historias parecidas e, vazio pelo adiantado da hora, produzia os pequenos ruídos da despedida. Aqueles que só escutamos no último dia.

Entupido o porta malas do carro, fechei a tampa. O barulho surdo me pareceu diferente. Mas tudo era diferente naquele momento. Um abraço encerrou a operação recolhimento de tralha.

– Vá com Deus e boa sorte. Não se esqueça de manter contato.

Tive a impressão que sua voz condizia com algumas sinais de lágrimas que por ali, na borda da região onde afloram nossas emoções, mostravam o que sentia meu colaborador de carregamentos finais.

Entrei no carro rapidamente e deixei a vaga 01 do grande estacionamento, deslizando os pneus sobre as folhas de amendoeira e restos de plantas secas que a leve brisa espalhava pela larga e bem cuidada alameda de saída da empresa. Olhei pelo retrovisor e vi o rapaz parado, estático, observando, como que cuidando a saída tranquila do agora ex-chefe.

O vigilante abriu o grande portão e mandou a tradicional recomendação – Vai na boa, Doutor. Até amanhã.  

Fiquei com a cabeça fixada na imagem do Ronaldo parado sob a luz fluorescente.
O Ronaldo era um jovem engenheiro da área de gestão da qualidade, que se tornara um colaborador especial nos últimos meses. Trainee com óbvio futuro brilhante, tinha a mania de se meter nos projetos mais cabeludos. Queria aprender e fazer. Rápido.

A cada oportunidade, lhe repetia didaticamente: – Calma Ronaldo. Calma. Andar, avançar, marcar posição. Andar de novo.
Muitos foram os conselhos e dicas e muito me ajudara. Só não consegui convence-lo de que o meu Botafogo era melhor que o Flamengo. Causa perdida.

Aquele ultimo dia era um dia muito especial para mim. Descobrira, uma vez mais, que não era chefe. Estava chefe.
A folia dos puxa-sacos que se agarram ao poder tinha cessado algumas semanas antes. O entra e sai de gente que quer dar um especial bom dia ou boa tarde, ou simplesmente passou para dizer oi, foi do excesso ao recesso num piscar de olhos. Poucos, contáveis em uma mão, vinham ter comigo.
Sem festa de despedida, pois a saída fora mal arranjada com o pessoal da sede da empresa em Paris. Não fora demitido mas transferido compulsoriamente para outra unidade de negócios, em outra cidade, 1.000 km de distância.

E no ultimo dia, na ultima hora, só quem aparecera fora o Ronaldo. Meio sem jeito, o oferecimento de ajuda para carregar peso em caixas e sacolas, sacrificando as aulas da pós-graduação, fora a forma que encontrara de demonstrar consideração verdadeira.

A lição estava registrada. Engraçado como fixamos os pontos de referencia da nossa memoria, do aprendizado nosso de cada dia. 

Por tudo que estava passando, calejado nas subidas e descidas de uma carreira plena, naquele dia de despedida o executivo acabava de ganhar o bônus inesperado da comprovação de uma amizade sincera.

Por tudo valera a pena. Pelo final, mais ainda.

Publicado por: cronicas

9 Comentários


  1. Jamile Gomes

    Nostalgia .. O sentimento que predominou em mim da primeira frase à útlima. Incrível como alguem da área técnica pode ter o dom supremo de transformar experiências em crônicas e histórias tão bem contadas, narradas e simplificadas.
    Paulo, como profissional jovem que tu sabes que sou, tenho dentro de mim uma descrição de líder muito particular e não sei como e nem porquê, vejo tantas dessas características do líder ideal em você.
    Sorte do Ronaldo e de tantos outros que conseguiram ser freados e motivados por você!

    Entro em contato ainda essa semana para nosso projeto de perfumar esse portal.. já até consigo ouvir o “poc poc” do salto em meio aos barulhos do chão de fábrica! (que o departamento de segurança do trabalho não me pegue! – risos!!!)
    🙂

    aquele abraço da tua leitora e “aluna” virtual
    jamile gomes

  2. Juscelino Americano

    Parabéns pela crônica Paulo.

    Na nossa vida profissional em ambiente fabril, nós nunca seremos o que somos e muito menos o que sabemos merecer.

    A todo momento devemos ser professores, pois estes não deixam de ser o que foram.

  3. Ronaldo

    Oi Paulo,

    Lembro bem desse dia, aliás, de todo o episódio…a reunião onde você anunciou sua saída, as conversas nos corredores sobre o futuro e o que nos aguardava e, principalmente, da sensação de não entender bem o que estava acontecendo.
    Nessa época minha pouca experiência não me permitia entender como e porque aquilo acontecia. A perda da referência, do coach, de alguém que além de ser meu chefe, era meu orientador e alguém que acreditava no meu potencial, foi dura.
    Mas, apesar de dura, hoje consigo enxergar como uma lição valiosa, um passo rumo a maturidade profissional, em que, assim como em tantos outros, você esteve presente.
    Sei que já te falei isso pessoalmente, mas gostaria de mais uma vez agradecer a todo o tempo dedicado, às conversas e toques, aos puxões de orelha, e ainda às conversas que ainda temos.
    E tenha certeza de que credito boa parte do que consegui até hoje na minha carreira ao fato de ter tido a oportunidade de trabalhar com você.

    Um forte abraço,

    Ronaldo.

  4. Geovani Menezes

    Grande PW,,,

    Com absoluta certeza ja vivemos situação parecida em outro contexto. E, assim como o Ronaldo, tive a honra de ter sido parado, freado, empurrado, puxado e até por que não dizer lançado pra frente e para o alto por voce quando “esteve” meu chefe. Situação muitas vezes complicada pois vc sempre anda muito à frente do seu tempo, e nem sempre entendi o PW visionário que voce era, é e sempre será.
    De qualquer forma, o que fica são histórias verdadeiras, realmente vividas e compartilhadas. Gargalhadas, choros, medos, e tantos outros sentimentos que puderam ser divididos e assim melhor compreendidos.
    Obrigado pela oportunidade de ter aprendido tanto contigo e de ainda te ter como um referencial.

    um abraço PW

    Gigio

  5. Reni

    Meu comentário sacana: No começo lembrei daqueles romances tipo Sabrina, alguém lembra?? na penumbra da noite…. Só as mulheres com certeza, depois do Paulo que a gente conhece e acredita que começou a guardar agendas e coisas antigas e que nunca vai usar depois dos 40…mas descobre que ele sempre foi assim.
    Mas eu gostei muito a cronica.

  6. Paula Esteves

    Impressionante como vc tem o dom da palavra. Essa cronica e linda. Foi muito dificil aceitar a tua saida… aceitar que todos os nossos projetos estariam perdidos. Saiba, entretanto, (acho que ja te falei isso) que os teus ensinamentos e que a tua liderança s”ao inspiraçao para mim ate hoje. Nao existiu em toda a minha vida profissional um lider como vc. Eu, Ronaldo e Sheyla lamentamos profundamente aquele momento, mas tinhamos a certeza que a tua contribuiçao em nossas vidas ja havia sido sacramentada. So lammento pelo Botafogo. Nao se pode querer tudo de bom das pessoas… MENGO !
    Aguardo data do chopp pra botar os papos em dia.
    grande beijo

  7. Paula Esteves

    a cronica foi boa mas n’ao precisava puxar tanto o saco do Ronaldo… agora ele vai encher o saco com isso… (rs,rs,rs)

  8. Leila

    Somente um lider capaz de enxergar uma atitude de solidariedade de um integrante de sua equipe em um momento em que aquela sensação de nao saber exatamente o que esta acontecendo, quando perdemos o chão, e a direita ou a esquerda passam a significar a mesma coisa, pode fazer historia, marcar vidas e mudar o destino profissional das pessoas.
    Naquele momento, era vc que estava saindo, mas na sua memoria ficou o nome de um amigo que lamentava sua partida e que encontrou em um gesto simples uma maneira de ser solidario e dizer ¨sinto muito¨.
    Sem duvida, neste seu momento o Ronaldo fez a diferença, mas porque voce com certeza havia feito a diferença nao vida profissional dele.
    Parabens PW.

  9. Luciane

    Olá meu Caro Paulo Walter, sem dúvida alguma fazer a diferença na vida das pessoas, nos dá a certeza de que tudo vale a pena na vida. E que nossos gestos independentes de nossos cargos serão levados pelas pessoas que nos cercam por toda a vida delas. Parabéns pela crônica acredito que o Ronaldo também não foi mais o mesmo depois que vc passou pela vida dele.
    Abs.