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Crônicas do Chão de Fabrica

cronicas

 

O motorista do Juca

- 28/02/2010

Nessa longa estrada da vida profissional já fiz de tudo um pouco. Soldei, cortei, dobrei, juntei, serrei, lubrifiquei, troquei pneu de empilhadeira e limpei trocador de calor. Saquei rolamentos em servo-motor pequeninho e também anel de segmento e fogo de 1,25 m de diâmetro em pistão de motor de navio.  A lista é longa.

Do aprendizado até a gestão, anos a fio, cada dia tinha e tem uma lição nova. À medida que o tempo passa novas tecnologias vão chegando e um pouco de tudo mais se vai sabendo.  Os planos de lubrificação de maquinas feitos na Xerox, um a um, deram lugar aos sistemas informatizados com com emissão de ordens de serviços para leitura infravermelha de códigos de barra e etiquetas inteligentes. Do uso de alto-falante para chamar o eletricista de plantão, passei às ordens de serviço controladas pelo celular e pela internet, acompanhando a evolução no chão de fabrica.

Mas para quem começa agora, não deve ser diferente. Quer crescer? Há que se disponibilizar para mudar, aprender com as oportunidades. E enjeitar serviço é coisa que não se faz. Se levantarem a bola, cabeceie e faça o gol.

E nessa de faz-tudo, teve uma historia envolvendo o Juca. Não lembro o nome de batismo dele. Era o Juca. Estagiário de Engenharia Mecânica. Estudava na mesma faculdade que eu. Só que ele não tinha formação profissional prévia e jamais trabalhara antes. Eu, por minha vez, já contabilizava alguns anos de experiencia ocupando já a subchefia da manutenção da fabrica.

Juca tinha a mesma idade que eu, ali pelos vinte e poucos anos. Uma simpatia o tal Juca. Ao chegar à seção, sem saber a diferença entre paquímetros e torquimetros, o estagiário novato logo angariou a amizade de todos . Como disse, o cara era a simpatia em pessoa, aquele sem vergonha malandrão.

Juca me ensinou que não se deve confiar em estagiários. Principalmente se ele for seu amigo fora do trabalho. 

Quem trabalha lá no fundo da fabrica, naquele calor horrendo, onde muitas vezes não bate luz solar, sempre escondido nos bastidores, dependurado no telhado, se arrastando num caminho de uma ponte rolante ou mergulhado no fosso da galeria técnica, sabe que para a turma da manutenção a obrigação do dia, alem de prevenir ou eliminar falhas, pode ser quebrar galhos de toda espécie. Se há um problema, da natureza que seja, não sabe a quem recorrer? Chama a manutenção.

Da instalação de antena e cabo (800 m) no sitio do presidente da empresa, para a mulher dele poder assistir a novela Dancing Days (nossa, que século foi isso?), até desenguiçar o carro da filha do Diretor de Marketing em motel de alta rotatividade, montei um portfólio de especialidades amplo, geral, irrestrito.

Então, levar carro da diretoria para reparo geral em oficina, seria, digamos, o trivial da rotina de quem cuidava de uma frota de empilhadeiras, caminhões e todos os automóveis dos diretores e mais os das suas famílias.

Aí é que entra o dia em que o Juca me ensinou que estagiários não são pessoas a quem você deva dar atenção e muito menos convidar para lhe acompanhar para levar um Ford Galaxie para a reforma em uma concessionária.

Aquele carro era um luxo. Uma banheira pra lá de confortável, imensa, com seus bancos de couro sem divisão e todo acolchoado do teto ao chão. Cambio na direção e ar condicionado perfeito. Como só saia da garagem para transportar visitas ilustres que vinham da matriz, sua rotina era ir ao posto de gasolina mais próximo, lavar, lustrar e voltar para a garagem. Era uma delicia dirigi-lo. Eu gostava muito e o Juca também.

Quando se decidiu recuperar o carrão, eliminando os pontos de ferrugem que se alastravam pela imensa lataria, eu fui, obvio, destinado a levar o bicho para a oficina. Uma viagem pequena, mas agradavel. Curtir aquela maquina pelas ruas da zona norte do Rio de Janeiro, desfilando num carrão que poucos eleitos tiveram a chance de entrar em um, mesmo as noivas mais sortudas.

Chamei o Juca, o tal simpático, e falei: – Vou levar o Galaxie para lanternar. Quer vir comigo? Voltamos de táxi.

Estagiarios são pessoas que parecem sempre disponíveis, não é?

O Juca de pronto se animou e disse: – Deixa eu dirigir? Nunca tive essa chance.

O pedido me pareceu normal. Todo mundo gostava de dirigir aquela belezura. Mas, ai santa inocência, nem me dei conta no que ele acrescentou.

– Oportunidades como essa não aparecem todos os dias. Vamos fazer uma brincadeira? Eu vou dirigindo e você vai no banco de trás. Serei seu motorista particular. Dois caras novos como eu e você, num carro desses, tá na cara que não somos os donos. Mas se um está no banco de trás, tira uma onda de empresário com motorista particular. Que tal?

Sabe aquelas estórias de conto do vigario? Não me dei conta de que estava embarcando em uma. Afinal, eu o Juca éramos apenas dois jovens trabalhando, mas se divertindo um pouco.

Devia ter prestado atenção no complemento do convite: – Hoje eu sou seu motorista e no dia que formos buscar o carro, você dirige para mim.

Aceitei na hora. Abaixei os vidros e aproveitei os olhares das pessoas nas calçadas, nos outros carros e nos sinais, que nos viam passando. O Juca dirigiu bem devagarzinho para que eu aproveitasse meu momento de empresário bem sucedido ou artista milionário. Pela cara das pessoas elas deviam estar. De quando em vez dignava um olhar enfadado aos mortais que tentavam identificar quem era o famoso que ia no banco de trás. Meus vinte minutos de gloria. Grande Juca.

Três semanas após era chegada a hora de retirar o carrão da oficina e dar forra ao Juca. Eu nem lembrava mais do nosso acordo. E nem dera muita atenção ao fato de que o estagiário todo santo dia me perguntava se o reparo estava indo bem e que não me esquecesse dele quando fosse resgatar o transatlântico de rodas.

Quando saímos da fabrica nem reparei na mochila do Juca. Pegamos um taxi e rapidinho estávamos diante do reluzente bólido. Fiz as verificações de praxe, testei o que podia, do motor aos freios e demais acessórios como faróis e puxadores de portas. Tudo certo com a viatura, bem arrumadinha, cheirando a nova, me preparei para sentar ao volante.

Aí foi que descobri a crueldade daquela mente diabólica. O Juca me lembrou: – O nosso trato é que você dirige e eu vou de “autoridade” no banco de trás, certo?

Dei de ombros e disse que sim. Não tinha problema, acreditava eu, que sempre cumpri meus tratos.

– Mas acho que a gente podia incrementar a coisa. Aqui tem um boné que os motoristas particulares usam e acho que vai ficar legal em você.

Olhei para a cara do sujeito e fiquei pensando se mandava ele ir para ou àquele lugar, sem papel para se limpar. Mas era o Juca. O simpático, o divertido Juca.

Achei que a piada valia a pena. Ajeitei o boné e assumi meu posto. O Juca tomou lugar na tribuna de honra traseira e fomos em frente. Nem rodamos 50 metros e o Juca abriu a mochila e tirou uns óculos escuros espalhafatosos que colocou no rosto malicioso. Ato continuo, passou um lenço de seda vermelho e azul pelo pescoço.

Ao ver aquela figura pelo retrovisor me deu um acesso de risos. Aquele palhaço estava mesmo aproveitando sua chance.

 Mas, devia ter me dado conta de que aquilo tudo tinha sido bem preparado e mais estava por vir. Assim, quando o Juca apanhou na mochila um imenso charuto e o acendeu pomposamente com um isqueiro lança-chamas, deveria ter parado o carro e refeito o acordo.

Mas não conseguia parar de rir. As pessoas nos olhavam e apontavam. Quem seria aquele ricaço que estava desfilando a bordo de uma banheira motorizada com motorista uniformizado?

Quando acreditei que o cara já tinha esgotado seu arsenal de armações, eis que surge o golpe final.

– Jarbas, pare o carro para minha namorada entrar.

Não entendi nadinha. O que estava dizendo aquele maluco?

Pois não é que no segundo sinal de transito, no nosso longo, imenso e interminável caminho de volta, estava na espera a namorada do Juca! Eu a conhecia bem. Maluca como meu amigo doidão, a pessoa estava de roupa de perua, com lenço na cabeça e óculos escuros desses usados pelas atrizes de cinema dos anos 1960, tipo no Tempo da Brilhantina.

Tudo combinado, entre eles obviamente, a “famosa” entrou e sentou-se ao lado do seu não menos famoso affair.  Que quadro! As pessoas paravam e se viravam em nossa direção. E eles, gentis, acenavam em retorno, em gestos cinematográficos, tipo obrigado mas autógrafos hoje não.

Comprei a peça teatral, a cujo roteiro não tive acesso prévio, e dei algumas voltas pelo bairro da Tijuca, transportando meus ilustres passageiros. A parada no Bob’s para um sorvete foi sugestão da “movie star”, pois não estava programada. Aquela meia hora de desfile foi inesquecível mesmo.

Fiz meu papel numa boa. Deixamos a pop em frente a portaria do prédio dela e pela cara do porteiro deu para ver que a partir daquela data o Juca estava promovido a categoria de doutor.

 A poucos metros da garagem de nossa planta industrial, Juca guardou seus adereços, pulando para o banco da frente. Sua cara espinhenta não comportava o sorriso imenso.

O sacana agradeceu, encerrando a grande viagem: – Meu, voce é mesmo um cara bem humorado.

Não sei onde foi parar o Juca, nas voltas que o mundo deu desde então, mas sua criatividade deve ter mudado a carreira técnica em mecânica.

Naquele dia o brincalhão Juca me passou duas coisas, que levo comigo até hoje:

Estagiarios no banco de trás, de jeito nenhum.

 E cada um tem seu dia de gloria, conforme se programa para ele.

Paulo Walter

Publicado por: cronicas

1 Comentário


  1. jamile.gomes

    Nossa! Eu rindo aqui no meio da empresa… Imaginei o banco do carro furado com as cinzas do charuto …
    Imaginei um acidente na mudança de percurso …
    Li apreensiva! (risos!!!)

    Mas no final, ainda bem que ficou só a piada!
    🙂

    Já fiz isso em uma carona de helicoptero .. tudo o que eu nao sabia é que era um voo de teste .. aqueles que se corta a transmissao do motor e combustivel … que se cai livremente por poucos metros em cima do lago paranoá! hahahaha!
    E o pior … fazia uns bons anos que nao era mais estagiária!

    todos tem seus 15 minutos de fama ..
    os meus foi de fama e muito enjoo!
    🙂

    abraços!