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Crônicas do Chão de Fabrica

cronicas

 

O almoxarifado sumiu?

- 15/03/2010

Cheguei na obra e não pude deixar de me impressionar. Um vai e vem continuo de caminhões e camionetes levantando poeira grossa, um mar de gente com uniformes de diversas cores e capacetes imundos, e equipamento de tamanhos os mais diversos. O caos pintado de vermelho.

Minha missão por aquelas bandas era simples: organizar a Manutenção da empresa e garantir que ao se apertar o botão da produção, o milagre da disponibilidade máxima acontecesse. Simples assim.

A construção daquela siderúrgica em Santa Catarina era um projeto mexido e remexido na Europa, tendo circulado por escritorios na Bélgica, Alemanha, Espanha e França. Foi pensado para ser de um jeito e foi mudando, mudando, a cada mesa onde pousava e, com o passar de alguns anos de indecisão, acabou sendo fechado num formato especifico para que pudesse ser montado com tecnologia e equipamentos franceses, alemães e belgas. Até ai nada demais, pois o projeto turn-key (chaves na mão) era o que de mais moderno se tinha no mundo para processos de galvanização de chapas de aço.

O maior de todos os desafios do trabalho era fazer o que tinha que ser feito num espaço de tempo considerado a metade do que deveria ser. Mas desafio bom é aquele em que a maioria da torcida roi as unhas para ver se o gol da vitoria sai mesmo no ultimo minuto dos acrescimos, depois de estar perdendo quase o jogo todo.

Então, perder tempo era tudo que não podia me dar ao luxo. Aliás, quem já trabalhou em obra, sabe que luxo é coisa que não aparece nestes lugares. 

Feitas as apresentações a ocupados e estressados engenheiros, gerentes e diretores, depois de algumas horas de peregrinação pelo grande canteiro de obras, entrando e saindo de barrcões e containers escritórios, cheguei ao cantinho provisório que me estava destinado.  Fiz minhas duas primeiras perguntas oficiais à minha recém conhecida secretària: – Onde tem café e onde está a planta geral da fábrica?

A solicita catarinense me mostrou como chegar ao carrinho com a grande garrafa preta. Ponto de reunião de moscas e gente barrenta e suada. 
No burburinho daquele grande escritorio de madeira, ela sumiu corredores adentro em busca do desenho que o chefe pedira.

A coisa por ali funcionava. Em duas horas a imensa folha de papel estava na minha frente, com seu cheiro caracteristico de cópia ainda secando. Saquei dos meus lápis de cores e comecei a marcar os locais e areas onde a Manutenção iria se instalar. Colore daqui, assinala dali, verifiquei que naqueles 110 mil metros quadrados de área industrail construida, a Manutenção tinha sido bem aquinhoada. Oficinas, escritorios e … Opa! Faltava alguma coisa.

Revi tudo, legendas e marcações. Faltava o Almoxarifado. Tinha tudo, menos o Almoxarifado. Resolvi levar o desenho e o assunto pra casa, no caso hotel. Vai que eu não estivesse enxergando direito, cansado da longa viagem ou com excesso de poeira nos olhos.  

Mas o Almoxarifado não apareceu mesmo. No dia seguinte, com o desenho enrolado embaixo do braço, comecei pelo que parecia mais obvio. Chamei o engenheiro responsavel pela central de documentação e pedi uma versão mais atualizada do desenho. O jovem frances me olhou com cara de espanto, como se não tivesse gostado da crítica que não fiz (fiz?) ao seu trabalho, e foi taxativo: aqui só libero copias do que está atualizado. Aliás esse desenho aí é o que está no contrato, na prefeitura e nas paredes de todo mundo por aqui. Vale o que está escrito aí.

Por alguns segundos me perguntei intimamente se aquele cara jogava no bicho, mas me concentrei no assunto:- Não consigo encontrar onde está o Almoxarifado, falei num tom de pedido de ajuda.

Com um certo ar de desdém, ele me tomou o canudão e abriu a planta. E foi com o dedo, correndo, correndo… Opa! Num tem Almoxarifado! Será? Se deteve mais um pouco sobre o papel, olhou para mim e com a segurança classica europeia, me disse: O chefe sabe a resposta.

De mesa em mesa, seguindo a hierarquia da obra, foi aumentando o grupo que seguia o canudo que passava de suvaco em suvaco. Era sempre a mesma coisa. Abre o desenho, olha, olha, olha e Opa!

O séquito com o canudo e quatro engenheiros, chefes e gerentes, comigo no fim da fila, chegou diante do gerente geral do empreendimento. Aquele era o cara. Depois de passar os olhos sobre a já amarrotada planta, veio a resposta reveladora: – Não tem almoxarifado porque o almoxarifado será terceirizado!

Todo mundo se entreolhou e percebi que a turma tava meio dividida. Mas, ninguem se manifestou. Todos olharam pra mim para ver qual seria minha reação. Dei de ombros e disse:
–  A gestão do almoxarifado pode ser terceirizada mas, fisicamente, tem que ter um local para guardar as milhares de peças sobressalentes e os imensos equipamentos reserva que toda siderúrgica precisa. Aliás, daqui a poucas semanas começam a chegar de todas as partes.

Os rostos se viraram na direção do homem que fora responsavel técnico por todas as etapas de aprovação e negociação do empreendimento ao longo de 4 anos, esperando sua réplica. O silencio e a demora da resposta foram sintomaticos. – Deixa que eu vou ver.

Duas semanas depois um pequeno almoxarifado de modicos 2600 m2, com uma ponte rolante de 9 Ton, suficiente para armazenar 4200 itens diferentes, começou a ser construido. Saiu um pouco (20%) mais caro do que se tivesse sido previsto no projeto original, pois varias modificações da rede de utilidades e comunicação, não previstas, tiveram que ser remanejadas.

Ganhamos um bom almoxarifado e eu, particularmente, ganhei a má vontade de um ou outro gerente de construção. Nada muito forte. Só um pouquinho. Mas ficou a lição. Vai construir? Que tal chamar o cara da manutenção e perguntar a ele o que acha?  Ou o que falta!

Abraços

Paulo Walter

Publicado por: cronicas

4 Comentários


  1. jamile.gomes

    Pra tu ver .. Se em 4 anos uma mega empresa dessa nao se deu conta da importancia de um almoxarifado … imagina um presidente em seu primeiro governo!
    (risos!)

    Abraços pra ti blogueiro parceiro!
    🙂

  2. jose henrique xavier

    Muito interessante esta observação de construção e modificação, sempre algo é esquecikdo e lembram quando tudo ja está pronto.
    abraço a td.

  3. jose henrique xavier

    Isso acontece constantemente em empresas da área da construção civil abraço

  4. ROBINSON A RODRIGUES

    Sou gerente de manutenção e a cada projeto que participo, o fato da manutenção não se integrar deste o início, prevendo melhorias ou erros de projeto. Isto impacta na performance e nos custos, afinal depois, nós somos chamados para resolver e melhorar, sem que o problema e as falhas sejam mostrados. Ao longo de meus 16 anos de carreira, cancei de socorrer diretor e gerentes desesperados pelo excesso de confiança ao até mesmo ignorância. Todo projeto deve sempre ter um membro da manutenção envolvido.