oferecimento
Esqueci minha senha

Crônicas do Chão de Fabrica

cronicas

 

Notícia Direto da Oficina: A Chave de Fenda e a Chave Ajustável resolveram sair do armário.

- 21/09/2018

Deu em todas as manchetes de jornais, foi destaque no noticiário da TV a noite, trending topic do Twitter e do Instagram, bombou no Facebook e viralizou nos Grupos de Whatsapp de todo o país.
É verdade, pois confirmado em sites de verificação de fake news.

Depois de anos vivendo dando suporte uma a outra, revezando-se no trabalho, a Chave de Fenda e a Chave Ajustável iam oficializar seu relacionamento. Sair do Armário e assumir novas posições.

Todo mundo sabia que elas se abrigavam na mesma gaveta, dentro do Armário, já havia muitos anos. Ambas eram forjadas, duras na queda e solicitadas sempre para as missões mais complexas.
Sempre as duas, nessa vida de apertos e afrouxamentos. Gira pra esquerda, solta. Gira pra direita, aperta. E olha que nem uma das duas jamais se manifestara sobre tendencias ideológicas.

Difícil serem usadas ao mesmo tempo, mas uma sabia da utilidade e aplicabilidade da outra. Sempre se admiraram. Se completavam. Se ajustaram e até ganharam marcas iguais ao longo do tempo.

Vez por outra, quando se separavam e iam para o quadro de fixação, na parede da Oficina, ficavam longe uma da outra, alinhadas por tamanho, cada uma com sua família. Nessas horas, distantes um pouco entre si, a ansiedade era para surgir logo uma missão onde as duas fossem ser escolhidas por primeiro para dar conta de uma preventiva ou corretiva ou mesmo algo novo, em instalação.

A Chave Ajustável, também conhecida como Chave Inglesa (sofisticação…), que era mais flexível e sabia se abrir ou fechar diante de cada situação, foi quem tomou a iniciativa e fez o anúncio de que ia ter festa. Foi um alvoroço desde o Esmeril até a Bomba de Lubrificação. Não se falou noutro assunto por semanas nas bancadas e nos tanques de lavagem de peças. A lista de convidados era extensa e ficar de fora dela seria algo impensável.

A Chave de Grifo, também conhecida como Chave de Bombeiro, espalhou para todos que ia ser madrinha. A Família das ferramentas manuais estava pra lá de feliz, mas alguns alicates, para variar, faziam alguma fofoca, principalmente os de bico. O Arco de Serra mandou encomendar lâmina nova e o Prumo disse que ia à festa mantendo sua linha original.

Alvoroço mesmo foi a discussão entre a Trena e a Chave de Boca. Passaram das medidas e foram pra força bruta, só resolvendo a parada com a intervenção do Torquímetro, que deu um basta.

O que não se sabia é se o pessoal da Instrumentação ia ser convidado para o rapapé. Afinal, a discussão de sempre era se instrumento de medição é ferramenta ou não. A discriminação de sempre que não leva a nada.

Passou o tempo e chegou o dia. Foi uma festa anunciada em quadro de avisos e comunicada por e.mail a todos, sendo batizada de Inventário Geral.

Foi uma beleza. Um cerimonial que mexeu com todos. A regra principal é que ninguém, naquele dia, podia esconder algo. Era um acontecimento inclusivo.

Alicates de Compressão confraternizando com Martelo de Bola, num papo eclético, Chaves Cotoco na mesma bancada ao lado de Saca Polias, usufruindo de um óleo lubrificante que era servido a todos, não sem antes uma amaciada de flanela bem relaxante. As Marretas, marrentas como só elas sabem ser, ficaram um pouco a parte, mas estavam confortáveis na área de pesos pesados junto com sua inseparáveis amigas as Chaves de Bater. Já as Chaves Phillips, por serem da família da Chave de Fenda, foram alinhadas junto com as Chave Allen, que apesar do nome não têm parentesco. Como sempre, as esfuziantes Chaves Combinadas, estavam soltas exibindo sua dupla personalidade. O Martelo parecia um pouco abatido, diferente da Alavanca que conhecia todo mundo ali presente.

A festa do Inventário foi um sucesso. Gente que não se sabia mais onde estava, apareceu de dentro de uma gaveta qualquer onde estava escondida fazia bom tempo. Os Tornos de Bancada abraçavam quem por eles passava, as Caixas de Ferramentas foram reunidas e abertas e ninguém ficou de fora.
Mas, como sempre rola algum stress nesses eventos, o da vez foi o rolo entre os Apalpadores e os Relógios Comparadores. Nem precisa explicar o porque, né?

Não conformidades a parte, foi um belo encontro geral.
Mas evento é evento. Uma hora tem que acabar. Depois da todos terem sido identificados, registrados e fotografados, foram colocados nos respectivos e conhecidos endereços.

De volta à Caixa do Eletromecânico, a Chave de Fenda e a Chave Ajustável, se recolheram, juntinhas, brilhando e prontas.

No dia seguinte a vida na Oficina seguiu sua rotina.
Mas para aquelas ferramentas tão simples, tão comuns, aquele dia seria inesquecível e por muito tempo relembrado.
Afinal, ninguém esquece seu primeiro Inventário.

Por Paulo Walter

Publicado por: cronicas

3 Comentários


  1. Milciades Lozano

    Muito bom seu artigo, mais falto convidar o Martelo, que mecânico de manutenção não tem solucionado algum pepino, matado um jacaré com esse trio?
    Se era para sairem do armário, teria sido justo chamarem ele para a festa.

  2. Alessandro Trombeta
    Alessandro Trombeta

    Muito legal! Parabéns Paulo, sempre nos surpreendendo com tais conteúdos!

  3. Edmilson L. Bueno

    Parabéns Paulo.
    O texto ficou ótimo. Parabéns!!!

Converse no WhatsApp