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Crônicas do Chão de Fabrica

cronicas

 

As malas e o viajante.

- 28/01/2010

O ano não lembro direito, mais foi ali por meados da década de 1990.
Assunto? Implantação de um contrato de prestação de serviços de manutenção em mais de 400 pequenos poços de exploração de petróleo.
Local? Interior da Bahia.
Porque? Uai, porque é preciso trabalhar, crescer, melhorar, avançar.    

Era um baita desafio, dadas as condições e porque a empresa era pequena. Pequena abusada, já que avançava sobre mercados novos, fazendo serviços em área classificada, a 3000 km da sede. Tinha a logística, veículos, ferramental e equipamento especial, uniformes e EPI, e pessoas a contratar. Muitas pessoas, para preencher diversas funções como eletricistas, mecânicos, instrumentistas, administrativos, técnicos, engenheiros.

Dois meses dedicados à mobilização, ao planejamento, aos entretanto, tudo como sempre deve ser, antes dos finalmente.

A equipe de implantação mandou bem. A melhor Pensão da cidade, que tinha até placa de Hotel na porta, virou quartel-general da pequena operação posta-em-marcha. Foi o agito na pequena Alagoinhas e região por algumas semanas. Tinha kombi com auto-falante chamando as pessoas para apresentarem seus CV, anuncio na radio local, fornecedores se cadastrando, prestadores de serviços se apresentando. Com a economia estagnada na região por tantos anos, aquele pequeno evento assumia ares de novidade e esperança para alguns poucos privilegiados.

A turma que implanta obras e contratos, principalmente em locais mais simples, sem onde e a quem recorrer, sabe o que se descreve aqui. Montar o canteiro, a estrutura, fazer a base. Dá trabalho. E quem chega depois não faz  ideia do que custou.
Do ponto de vista interno, para uma empresa de pequeno porte, aquela era uma operação gigantesca. Poucos recursos, muita criatividade, bastante suor. 

A engenheirada do cliente se surpreendeu. Começados os trabalhos no campo, a equipe teve uma performance muito superior ao que acontecia antes. Sem essa de inicio de temporada, como os times de futebol dão como desculpa para seus maus resultados nos primeiros jogos.
A regra da qualidade era fazer certo da primeira vez.

Um mes de trabalho e a primeira reunião com o principal fiscal do contrato. A pergunta ansiosa: E aí? Como foi até aqui? Com o calor que fazia fora daquela sala, se justificava o suor. Mas o ar condicionado estava a toda, e até fazia frio.
Por mais que voce ache que está tudo bem, não esqueça essa palavrinha magica chamada humildade. Vai que voce é o ultimo a saber…

O baiano simpatico (redundancia) sorriu e disse: – Quer um elogio por ter feito a sua obrigação?
Alguns microsegundos de surpresa e reflexão, me fizeram mexer na cadeira. A empresa que nos antecedera era um desastre. Era tradicional na região, tinha seus “contatos” e “influencia”. Mas a verdade é que recebia para não fazer sua obrigação. Não pagava salarios em dia, não dava condições minimas aos trabalhadores. Faltavam ferramentas, equipamentos, gestão e respeito. Até a agua dos bebedouros era colhida nos rios da região, o que justificava frequentes ondas de diarreia que derrubavam até os estomagos mais curtidos de trabalhadores valentes e bons de serviço. Naquela árida região, com escala de termometro que só existe no sertão, a frieza dos numeros de falhas era um detalhe em tudo o que acontecia antes da gente chegar.

Ainda bem que não abri a boca. Nem para defender nem para fazer a pergunta de balanço. O baiano sacana completou, num sorriso tranquilizador: – O viajante a gente conhece pelo arriar das malas.

O arriar das malas. Sim, a forma como fizeramos a seleção da equipe, os recursos que foram chegando, as iniciativas para trazer aos locais de trabalho um minimo de organização e limpeza, essas eram as credenciais apresentadas.

Desde então, cada vez que chego a um ambiente novo, para uma reunião, um trabalho de consultoria ou palestra, cuido muito onde coloco minha mochila com meu computador. Vai que tem algum baiano olhando…

 

 

Publicado por: cronicas

5 Comentários


  1. Geovane Almeida

    Trabalhei por 5 anos na Bahia (Sto. Amaro) e sei do que você está falando. Compartilho da mesma opinião e acredito sempre que é a primeira impressão que fica.

  2. Albano

    É meu companheiro, não só o arriar das malas, mas como diz o antigo ditado, “pelo andar da carroagem….”. Se ao começarmos colocar em prática qualquer atividade e começa errado, sem planejamento, a chance de não conseguir retomar o rumo no decorrer da própria é muito grande.

    portanto planejamento e cautela são aliados fortes………….há e limpeza..rs.

    Parabens Walter

  3. ADALBERTO PERES

    Meu amigo, trabalhei por 3 anos na Bahia, coincidentemente em Alagoinhas e sei perfeitamente das dificuldades que encontrou. Do calor intenso, da falta de materiais, da política forte da região. Sim, vocês foram vitoriosos. Mas, em Alagoinhas, temos muito boa mão de obra! Me surpriendi muito lá!

    Parabéns!!!

  4. João Carlos Machado

    Dificuldade e muita luta são sinônimos de quem trabalha em empresas pequenas, onde temos que bater o escanteio e correr para cabecear, porem, a empresa vai crescendo e muitas vezes estamos acostumados a trabalhar com o que temos que esquecemos que já é hora de ir planejando melhor e modificando as coisas e quando conseguimos planejar melhor começamos a sair um pouco mais da loucura do trabalho e planejamos melhor nosso trabalho, enfim planejamento e qualidade é tudo para o bom desempenho da equipe e para o bons resultados.
    Um grande abraço Walter.

  5. Sandro Maurício

    Também trabelhei na Bahia, porém noutra região de intenso calor: Paulo Afonso. Como estive sempre do outro lado da mesa, a do tomador de serviço de uma estatal, sei que poderemos nos deparar com empresas organizadas como a sua, que infelizmente ainda é minoria. Me vi nas suas descrições de fatos e lugares e sei que de fato as dificuldades são grandes, mas o planejamento e a organização são a principal ferramenta para usar nessas ocasiões, além é claro competência técnica (prérrequisito básico para a contratação). Parabens!