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Crônicas do Chão de Fabrica

cronicas

 

Lei Número 2 da Carreira ou Lei da Adequação ou ainda Lei de Jesus, o motoboy

- 11/09/2009

Jesus era motoboy na minha pequena empresa, nos idos tempos de inicio da decada de 90, em Curitiba. Levava documentos, trazia pequenas peças, ia ao cartório e a prefeitura. Ia e vinha. O dia inteiro, o tempo todo.
O rapaz adorava esse negócio de andar em duas rodas, livre, ao sol ou na chuva. Pra cima e pra baixo, sem quase parar.
A moto era da empresa e ele um empregado registrado em carteira, com plano de saúde e benefícios de praxe. Mas Jesus não estava feliz, percebia-se que não estava satisfeito. Algo não ia bem debaixo daquele capacete.

Um dia aconteceu uma greve de onibus na cidade. O Jesus, acompanhando um bom número de trabalhadores, não apareceu durante os dias de paralisação do serviço de transporte. 
Terminada a greve, o motoboy chegou na empresa, com cara de descansado, perguntando como tinham sido aqueles dias sem ele, que era responsável por tantas tarefas importantes e quase sempre urgentes. Queria saber se era importante ou não.
Ao cruzar com o nosso personagem perguntei diretamente: – Escuta Jesus, todo mundo aqui sabe que voce vem trabalhar de bicicleta, exceto em dias de chuva. Não choveu nestes dias sem onibus. O que houve?
A resposta veio titubeante e sem consistencia, tipo o pneu furou, receio de sair de casa e ter tumulto e o pior, que usava o onibus sim, embora naquele dia de retorno tivesse chegado pontualmente na empresa em seu horário (como de praxe) pilotando sua portentosa magrela amarela.

Passados alguns dias me volta o Jesus perguntando se eu tinha alguns minutos para uma conversa. E foi logo apresentando a reinvindicação: – Doutor, eu preciso de uma aumento. Meu salário não está dando. Mulher e filho, escola, aluguel, etc., etc. Veja aí o que o senhor pode fazer por mim. Sou um bom profissional e acho que mereço um aumento.

Jesus recebia VT, vale refeição e tinha o plano de saúde padrão. E salário de motoboy.

Respondi olhando-o nos olhos. – Não há aumento algum que possamos lhe dar. O seu salário está no limite máximo. 
Apesar da resposta direta e curta, Jesus não se deu por satisfeito. – Mas doutor, eu cumpro minhas tarefas certinho, tudo no horário, nunca perdi um documento, chego e saio na hora certa, sou amigo de todos e acho que voces podiam me ajudar. E já tenho mais de tres anos de casa.

Achei que aquele dialogo acabava de ganhar cores interessantes e poderia terminar num quadro emolduravel. – Voce cumpre a sua parte e a empresa a dela. Seu salário atrasou algum dia? Algum problema com seus benefícios e há algum serviço que lhe peçam que não esteja entre suas obrigações? Isso aqui não é serviço publico onde tempo de casa dá premio. Aqui ganha-se pelo que se faz. Se não faz, não serve. Se faz, fica e aí está o premio. Jesus, meu caro, não posso fazer nada por voce. E voce, o que vai fazer por voce mesmo? 

A última frase mexeu com o Jesus. Como assim o que ele podia fazer? Já fazia tudo, e muito bem, pilotando sua motoca. Será que deveria pedir demissão? Fazer greve de fome? Bater a moto? Piorar o serviço?

– Como assim? O que posso eu fazer por mim? Estou aqui tentando exatamente fazer algo por mim e por minha familia.
– Seguinte, não posso fazer nada por voce mesmo. Motoboy é seu limite de carreira. E nessa empresa nunca teremos um chefe dos motoboys. Ou voce sai da moto e vai aprender uma nova profissão ou se contente com o que ganha.
– Mas doutor…
– Vou lhe dar um conselho, sem cobrar pelo mesmo. A empresa passa, o tempo é um pluft, passa e a gente nem ve. Só uma coisa vai estar com voce quando tiver 65 anos.
– E o que é?
– Voce mesmo. Aos 65 anos, com mulher e fil;hos, ou sem eles, se chegar aos 65 o Jesus de então vai cobrar o que o Jesus de 30 fez por ele. Seja lá o que for que voce faça, é voce mesmo quem vai usufruir do resultado.

O Jesus me olhou com cara de quem tinha entendido mas não tinha gostado. Mais não disse nem perguntou. Deixei aquela empresa alguns meses depois desta conversa e perdi o contato com o motoboy reinvindicante.

Passados muitos anos fiquei sabendo que o Jesus de 65 tem novas e boas esperanças de ter um pouco mais de conforto e tranquilidade. Depois daquela conversa Jesus foi a luta. Foi ao SEBRAE, se qualificou nuns tantos cursos, e terminou seu segundo grau. Hoje é empresário e tem uma pequena empresa de entregas rápidas, empregando mais de 15 profissionais.

Qualquer hora destas vou visitar o ex-motoboy, atual motoempresario. Talvez ele me possa dar umas dicas de como fazer diferente para ter resultados diferentes. E aplicar uma regra simples, que todo motoboy conhece: se quer chegar rápido, primeiro saiba onde deve ir.

Abraços

Paulo Walter

Publicado por: cronicas

1 Comentário


  1. Henrique J. G. Ulbrich

    Olá, Paulo, bom dia.
    Gostei muito do texto. Muito bem escrito.

    A história é verdadeira ou fruto de tua imaginação (e mesmo nesse último caso, muito bem calcada na realidade).

    A propósito, conforme tua sugestão, meu CV já está cadastrado no site.

    Da minha parte, continuo batalhando e me atualizando, apesar de que essa atualização tem sido na minha área, telecomunicações. Nada que inviabilize uma colocação em outra área, onde minha experiência também em coordenação de equipes e planejamento de operações possa ser aproveitada.

    Grande abraço,

    Henrique