oferecimento
Esqueci minha senha

Crônicas do Chão de Fabrica

cronicas

 

Diplomas e gravatas

- 21/04/2012

Dia de formatura é dia para ficar na memória. Diploma de engenheiro, setes anos de faculdade paga, sacrifícios sociais, gente que ajudou, gente que atrapalhou. Depois de vinte um anos, do primário a colação, muita ralação. Histórias de dúvidas e decisões, de coincidências, pequenas derrotas e vitórias, amizades, dedicação, desanimo, reinvenção. Graduar-se é um investimento e tanto, com diversas participações.
A formatura é um marco, que enseja guardar a folhinha do calendário, com o santo e a oração do dia. Dia de festa. E o dia todo na função. Cabelos arrumados, banho mais elaborado, perfume especial, camisa engomada e até sapato engraxado, como se fosse obra de exposição.
O terno, escolhido na melhor relação caimento x crediário, simboliza a peça de embalagem do mais novo doutor da praça.
Enfiado em meias finas, compradas para a ocasião, o novíssimo diplomado se sentia o cara, o alpinista no topo da montanha, o maratonista no pódio, pronto para ser reconhecido e festejado como herói de filme de ação.
Tudo pronto e ensaiado para um momento de júbilo de uma pequena parte do proletariado. Não era pra menos, pois a babilaca de engenheiro assumia ares de carta de alforria. Promessa de ascensão profissional, financeira, social.
Do alto de todo aquele conhecimento adquirido, de tanta sabedoria acumulada, nada lhe assustava. Ainda mais bem vestido assim.
Mas a vida, destrambelhada, segue os rumos do destino, que enlaça, entrelaça e faz desvios, apresenta, logo neste dia, um grande desafio. Um verdadeiro nó na situação. O nó da gravata.
Não faltava nada, nadinha mesmo. Tudo programado, com tempo cronometrado. E agora, essa insolúvel questão. A quem pedir socorro, a minutos do momento de glória, para dar fim a essa medíocre situação?
Por sorte, muita sorte, a benção da ajuda, mora bem ao lado. Uma batida contida, mas algo desesperada, traz a porta o vizinho, o peixeiro aposentado.
Nem boa noite, nem nada, direto ao ponto, coisa de quem está muito apressado.
– Seu Felisberto, o senhor sabe dar nó em gravata?
Um sorriso condescendente alivia o semblante do formando desgravatado.
Com três movimentos de mão, ao redor do pescoço e na ponta dos dedos calejados, está pronto, na medida, o nó tão desejado.
A solenidade foi uma beleza. Com discursos, juramentos e distribuição de canudos, tudo na maior distinção. A família emocionada, como manda o figurino, comemorou seu filho enfim graduado. Uma noite de orgulho, muito bem marcada.
Passados muitos anos, me recordo de pedaços daquela ocasião.
Cada vez que me arrumo para a solenidade do trabalho a cada dia, fazendo no espelho o ritual, ao dançar com a gravata na mão, repito intimamente:
– Terno, sapato e camisa de formatura: R$ 1800,00 (em 10 vezes no cheque pré-datado)
– Gravata italiana de seda: R$ 220,00 (emprestada pelo chefe)
– Ter o Felisberto por perto para dar o nó na gravata, não tem preço.
Existem coisas que o dinheiro não compra, nem mesmo com um bom diploma.
Paulo Walter
Twitter @paulowalter

Publicado por: cronicas

Nenhum comentário ainda